É invejável como Quentin Tarantino é um dos poucos cineastas que pode colocar um letreiro no início de seu filme dizendo que Os 8 Odiados é seu oitavo longa; prepotência a parte, em quase 24 anos de carreira o realizador obteve sucesso de crítica e público em quase todas suas obras, tornando-se objeto de culto no mundo cinematográfico.

É inegável também, que desde Bastardos Inglórios (2009), Tarantino vem mudando um pouco seu estilo cinematográfico. Se antes o cineasta apresentava quase uma colagem de referências pops regada a uma direção frenética, agora ele parece dissipar suas homenagens em torno de sua trama, deixando a força de seus longas nos seus inventivos roteiros. Hoje, o cinema de Quentin Tarantino é muito mais literal do que cinematográfico e Os 8 Odiados é o auge desse rumo que Tarantino tomou.

Assim, o roteiro do filme é o seu maior êxito, talvez um dos melhores scripts dos últimos anos. Com uma trama extremamente bem amarrada, cheia de reviravoltas e personagens muito complexos, o cineasta adota uma estratégia que vem do literato Ernest Hemingway, a ponta do iceberg, na qual o público é informado apenas da parte mais superficial dos personagens e ações, descobrindo aos poucos o que há escondido nessas tramas. E é assim que Tarantino mantém seu espectador preso pelos mais de 160 minutos de projeção, colocando lado a lado personagens nada confiáveis em que nunca se sabe quem eles de fato são, o público é convidado a se surpreender com todas as nuances desses oito odiados e suas ações.


Dessa maneira, pelo desconhecimento prévio da audiência, Quentin Tarantino pode manipular seu público de todas as maneiras. O realizador inverte acontecimentos, mostrando o que aconteceu de perspectivas diferentes (algo habitual em sua obra podendo ser visto em Jackie Brown, Pulp Fiction, entre outros), e com isso colocando a cada momento o espectador ao lado de um personagem, chega a um ponto que é impossível não se apegar à assassina Daisy Domergue, desprezada desde o primeiro plano do filme.

Além disso, Quentin Tarantino tem tanto controle de sua trama, que pode construir um ritmo cadenciado, apostando apenas na interação dos personagens por quase metade do seu filme, para depois romper com tudo o que foi estipulado, realizando um longa completamente diferente em sua segunda parte. Assim, Os 8 Odiados pode muito bem ser dividido em dois filmes, o primeiro um longa de faroeste clássico como os de John Ford e Howard Hawks, e o segundo um Western Spaghetti digno de Sérgio Leone. São exatamente essas surpresas e quebras de expectativas que movem Os 8 Odiados.

E essa construção e desconstrução narrativa é muito particular do cinema e da literatura. Ambas as artes são baseadas puramente nessa elaboração da ficção e em Os 8 Odiados há um personagem que é a concretização desse processo de criação, o Major Marquis Warren. O personagem vivido por Samuel L. Jackson é quase a persona do próprio Tarantino na tela. Marquis é o grande responsável por manipular seus companheiros, não é possível saber se as suas histórias são reais ou pura invenção, e o ponto de virada do filme comentado no parágrafo anterior é justamente causado por uma dessas ficções de Warren. Assim, naquela taverna, naquela única locação, não há espaço para grandes planos, ou extravagâncias cinematográficas (sim, Tarantino sempre encontra espaço para alguma delas) – em Os 8 Odiados sobra apenas o poder do texto, a força das palavras e a construção da ficção.

Em seu oitavo filme, Quentin Tarantino chega a um novo patamar, talvez alcançando seus próprios mestres. O cineasta, que em uma nova vertente de seu trabalho, faz uma obra tão madura e consistente, só fica a questão de qual será o próximo passo desse grande realizador. Com Os 8 Odiados só resta ressaltar que a filmografia de Tarantino é invejável.