Crítica | Spotlight: Segredos Revelados

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Alguns filmes parecem seguir uma cartilha com recomendações bem específicas para se habilitarem aos principais prêmios do cinema americano. Spotlight: Segredos Revelados de longe parece um exemplo disso: um drama baseado em fatos reais e com uma crítica social importante atualmente. Só que o longa do pouco conhecido Tom McCarthy evita cair nos clichês do gênero e revela-se um grande filme.

Baseado na história de um grupo de jornalistas que investiga um escândalo de pedofilia na Igreja Católica em Boston, McCarthy entende perfeitamente que o tema é dramático por si só, não caindo na armadilha do sensacionalismo e sentimentalismo. Spotlight consegue extrair dramaticidade dos próprios fatos sem apelar para uma trilha sonora grandiosa ou grandes surpresas, o longa tem um compromisso com a realidade e faz desse fator sua melhor qualidade.

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McCarthy tira de seu elenco performances incríveis; Rachel McAdams, Michael Keaton e principalmente Mark Ruffalo se entregam, tornando seus personagens, que já são bem complexos, ainda mais humanos. Mas o que chama atenção são os personagens secundários, ou nem isso. O grupo de jornalistas busca pela cidade as vítimas dos abusos de vários padres, e são nesses relatos em que o filme surpreende. Os fatos narrados por esses personagens menores são marcantes e dramáticos por natureza. É fascinante como o diretor utiliza bem os silêncios nessas cenas, há apenas a experiência daquelas pessoas, há apenas o drama, há apenas o mal causado por toda aquela situação.

Dessa maneira, Spotlight: Segredos Revelados é um filme denúncia. Não apenas dos fatos que já são revelados na sinopse, mas de como aquilo pôde acontecer e esse mais do que tudo é o grande legado do filme. Ao longo da busca da equipe de jornalistas pelos acontecimentos, é mostrado como uma cidade inteira foi igualmente culpada pelos fatos. Acobertando tudo o que acontecia para proteger a reputação da Igreja e da cidade, Boston é um dos tantos criminosos. Em um momento do longa, um advogado diz que para educar uma criança é necessário uma vila inteira e para abusar de uma criança também é necessário uma vila inteira. É exatamente essa ferida que Spotlight busca cutucar, ninguém ficará impune, nem que para isso seja necessário escancarar os pecados de uma população inteira.

Interessante notar como Spotlight: Segredos Revelados não tenta de forma alguma ser genérico ou universal, mostrando as particularidades da cidade norte-americana e porquê o caso se deu de tal forma naquela região. Vale ressaltar como o diretor filma a cidade nas cenas externas, sempre com a presença física de alguma igreja, evidenciando ainda mais o poder e a opressão daquela instituição na vida e atos dos cidadãos de Boston.

Com tudo isso, Spotlight não deixa de conter um clima pesado, mas é exatamente pela força e persistência dos seus protagonistas que o filme ganha seu ritmo. E é dessa forma que o longa tem seus grandes momentos, o que dizer da sequência em que um coral de criança canta noite feliz em uma igreja e em uma montagem o espectador acompanha a escrita da reportagem que denúncia paróquias, padres e bispos, além de mostrar como o árduo trabalho reflete na vida daqueles jornalista.

Diante de tudo isso, Spotlight: Segredos Revelados só pode ser considerado um belo filme. Um longa necessário para nossa sociedade e que alcança momentos de verdadeiro drama, conseguindo ser sensível diante daquelas histórias, mas que mantém uma responsabilidade crítica de encarar os fatos sem hipocrisia ou sensacionalismo.

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