Crítica 2 | A Garota Dinamarquesa

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O britânico Tom Hooper é uma das figuras carimbadas do Oscar, de seus cinco longas metragens três foram indicados pela Academia, recebendo até o prêmio de direção por O Discurso do Rei. Com seu novo filme, A Garota Dinamarquesa, o diretor não conseguiu nenhuma indicação pessoal, mas garantiu Eddie Redmayne (outro queridinho do Oscar) e Alicia Vikander na premiação, além da possibilidade dos prêmios de melhor desenho de produção e figurino, prêmios técnicos que demonstram certo prestígio (principalmente nos aspectos visuais de suas realizações) diante da Academia de Artes Dramáticas e até mesmo do público.

Em A Garota Dinamarquesa, Hooper narra o primeiro caso de uma cirurgia de mudança de sexo, acompanhando o caso do pintor dinamarquês, Einar Wegener e sua descoberta como mulher, tudo isso focando no relacionamento entre Einar e sua esposa Gerda durante as mudanças dele. E talvez com o complicado tema, Hooper apresenta sua película mais frágil e que demonstra de que forma o diretor pode ter sido tão laureado com obras que mostram certa superficialidade no fazer cinematográfico.

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Essas fragilidades do britânico podem ser resumidas em três grandes características, que podem ser vistas em todas suas obras, mas em A Garota Dinamarquesa estão presentes da pior maneira. A primeira é o fascínio de Hooper pelo passado, que acaba se tornando quase um fetiche do diretor. Como O Discurso do Rei e os Miseráveis, A Garota Dinamarquesa é um drama histórico que se passa principalmente na Dinamarca (evidentemente) e em Paris, e no cinema de Hooper tudo é belo no passado, desde a luz, sempre bem amarelada que satura as cores de qualquer país, até as construções e cenários que sempre revelam os mais belos lugares, passando pela chuva que Hooper consegue deixar mais prateada do que qualquer água. E não importa o tema ou lugar representado para Hooper o passado sempre é belo, em um momento Einar vai a um cabaré parisiense e em uma cabina praticamente se vê em uma prostitua, e imaginar um local como esse no inicio do século XX é saber que as condições higiênicas do lugar não deveriam ser as melhores, mas de qualquer forma o bordel do filme é um lugar límpido, bonito, que parece ter saído dos contos de fada, e se neste momento o protagonista e ator parecem estar incomodados com a situação, mas que a direção do longa destoa desse sentimento, o cabaré e aquela prostitua chegam a brilha na tela, provocando uma assepsia ao filme, nem quando a locação e situação evocam um aspecto diferente Hooper teima em filmar a beleza. E isso talvez seja seu pior mal, o cineasta se deleita com as belas imagens conseguidas em terras dinamarquesas, parecendo que o filme foi escolhido para o britânico poder filmar magicamente algumas paisagens nórdicas, mas que pouco se acrescenta ao filme. Hooper parece projetar sua trama em torno de seus cenários, o centro deste filme e do cinema do inglês é a própria demonstração do passado.

A segunda característica tem muito da primeira e revela como Hooper é um diretor adepto do ‘bom-gostismo’. Um cineasta que a todo instante pensa no aspecto visual da sua obra, mas ao mesmo tempo revela-se tão desconhecedor da linguagem cinematográfica, um diretor que tem a capacidade de fazer um belo plano de algumas paisagens, porém nos momentos mais dramáticos sua estética esvazia-se e Hooper demonstra um descontrole total de sua mise-en-scène (que em rápido resumo é como um diretor através da linguagem cinematográfica passa sua visão da trama para o cinema).

Em muitos dos momentos mais importante do longa, Hooper utiliza uma profundidade de campo reduzidíssima (deixando praticamente quase todo quadro fora de foco), no entanto, o recurso parece não ter embasamento algum, não atribuindo nenhuma característica especial a um personagem ou transmitindo algum sentimento ou sensação através disso, isso sem falar as muitas vezes que Hooper deixa fora de foco o personagem que fala ou que está no centro da ação enquanto a nuca de um personagem de costas fica focado, não revelando absolutamente nada, apenas uma banalização e compreensão mínima da linguagem que ele utiliza. Muitas vezes aparenta que Hooper comete tais equívocos por estar entorpecido com a beleza de seus cenários e paisagens, e que sabe muito bem que essa aura da beleza e do bom gosto é um caminho muito fácil de encantar os mais desatentos membros da academia e boa parte do público.

E um cineasta que não consegue transmitir suas ideias através da linguagem cinematográfica apela para o ditadismo, e essa é a terceira característica dos filmes de Hooper. Um cineasta que não deixa suas imagens (apesar de belas) falarem por si só, fato que demonstra uma incrível superficialidade da abordagem de seus temas. É praticamente impossível ser profundo e didático ao mesmo tempo, e um plano importantíssimo, um xale dado momentos antes por Einar à Gerda sai voando de seu pescoço por um fiorde e a personagem Gerda grita a um amigo: “deixa, deixa ela precisa ser livre, deixe ela voar”, referindo-se evidentemente ao marido transgênero, mas o que vale ressaltar aqui é que tal metáfora seria compreendida facilmente sem a fala de Gerda, e sem tal didatismo a obra ganharia muito mais sutileza ao abordar este drama.

Hooper não é sensível nem ao retratar o tema mais complexo de sua carreira e talvez seja por isso que A Garota Dinamarquesa seja um filme tão frágil, uma vez que seu realizador necessita utilizar todos os caminhos mais fáceis para finalizar seu longa, seja arrancar lágrimas através da melodramática trilha sonora, surpreender através das transformações físicas de seu protagonista ou dar todo o tipo de explicação verbal possível para o entendimento da obra, ou seja, diversos tipos de didatismo cinematográfico.

E pensar que a crítica social de A Garota Dinamarquesa legitimaria toda a popularidade do filme é outro equívoco. Na maior parte da projeção, a trama é vista pelos olhos de Gerda, que apesar de viver um drama muito forte, parece-me que a complexidade da trajetória de Einar é muito mais instigante e dramática, entender-se como mulher e se ver como homem é algo complicado demais e que ao ser relegado quase ao segundo plano, deixa as mazelas Gerda pequena. O espectador tenta entender o que se passa na cabeça de Einar, mas vê apenas o drama de uma mulher abandonada, o didatismo de Tom Hooper não dá conta da complexidade que a história de Einar e Gerda possui.

E facilmente é identificado o porquê de tanto prestígio em cima de Hooper, um cinema fácil, que sempre busca temas de certa complexidade, mas que são tratados de maneira didática coberto por uma bela capa, bem feita e impecável, mas que por trás delas não há nada. Diante de um grande desafio, como é a história de Einar, Tom Hooper só certifica o quanto seu cinema é frágil e que boa parte do Oscar e da Academia é baseado muito mais em lobby e marketing do que talento.

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