Crítica | O Regresso

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Os Estados Unidos alcançaram o tamanho que tem atualmente por causa da conquista do Oeste. Uma das etapas desta expansão foi a guerra contra o México entre 1845 e 1848. Ao final deste conflito, os Estados Unidos anexaram ao seu território o que viria a ser o Estado da Califórnia, no qual fica Los Angeles, onde é a sede da indústria do cinema, Hollywood. Uma lenda do inicio desse avanço acabou atravessando os séculos e dando origem a livros, filmes e séries. Um dos livros acabou sendo a base para o belíssimo filme O Regresso.

O Regresso conta a história do caçador de peles, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio, de O Lobo de Wall Street). Ele está trabalhando com um grupo de caçadores de peles do Forte Kiowa, localizado perto do Rio Missouri, no atual estado da Dakota do Sul, comandado pelo capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson, de Ex-Machina: Instinto Artificial). Glass parece ter se integrado bem aos índios Pawnee, tendo inclusive uma mulher e um filho, Hawk (Forrest Goodluck, em seu primeiro longa).

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Ao retornarem da última caça, o grupo liderado por Henry acaba sendo atacado por índios Arikara. Eles querem o carregamento de peles. Os sobreviventes do ataque conseguem fugir subindo no barco com alguns dos fardos do carregamento. Porém, Glass aconselha ao capitão para abandonarem o barco antes que fossem emboscados pelos índios. Um dos integrantes, Fitzgerald (Tom Hardy, de Mad Max: Estrada da Fúria), que já não ia com a cara de Glass, não gosta nada desta ideia.

Em terra, o grupo, então, resolve esconder o que lhe restou de pele e caminhar ao largo do território dos Arikara para tentar evitar novos ataques. Os índios não atravessam mais o caminho deles, porém, em uma manhã, Hugh Glass é atacado por uma ursa que está protegendo seus dois filhotes. O capitão Henry oferece uma recompensa para quem carregar Glass de volta ao forte. Ficam para trás para carregá-lo, seu filho Hawk, o jovem Bridger (Will Poulter, de Maze Runner: Correr ou Morrer) e, também, Fitzgerald. Este ficou porque os outros dois disseram que dariam a sua parte da recompensa ao terceiro que ficasse. Porém, a volta dos quatro não foi exatamente como imaginaram e Glass acaba sendo deixado, vivo, para trás. Mesmo ferido, ele consegue se reerguer e começa uma épica viagem de volta.

Como dito anteriormente, a história de Hugh Glass gerou quatro livros e o último deles foi The Revenant, de Michael Punke, publicado em 2002. Não lançado no Brasil. O roteiro de O Regresso foi feito pelo próprio Alexandre González Iñárritu em parceiro com Mark L Smith. Iñárritu não poderia ter escolhido parceiro melhor. Smith é especializado em filmes de terror e suspense, como Temos Vagas (2007). A história ou a lenda de Hugh Glass já tem muito suspense e reviravolta por si só, porém, os dois conseguiram conectar os diferentes episódios de maneira que fizessem sentido e que todas as ações tivessem uma razão de ser. Até o ataque da ursa tem um motivo. Porém, fazem isso sem serem didáticos ou pedantes para com o público. O texto também desperta diferentes sensações e sentimentos nos espectadores, como surpresa, compaixão, ódio e ternura.

A direção de Alexandre Iñárritu em O Regresso justifica perfeitamente a sua indicação ao Oscar deste ano. A decisão dele em levar a equipe toda para lugares remotos no Canadá e Argentina, apesar de reclamações e irritações levantadas, fez toda a diferença. Elementos como a neve, a chuva, o rio e o vento demonstram como a natureza é um dos principais personagens desta trama. Esta deve ter sido a “integrante” mais difícil de lidar de todo o elenco, provavelmente.

Leonardo DiCaprio, também indicado ao Oscar pelo filme, demonstra mais uma vez a sua capacidade de interpretação. O seu personagem passa por situações dificílimas e ele só demonstra pela expressão, muitas vezes – como deve ser em uma boa atuação – todo o sofrimento e a angústia pelo qual está passando. Tom Hardy está bem também, interpretando um canalha. Hardy está ficando especialista neste tipo de personagem.
Já Will Poulter não está tão bem em seu papel, pois se comporta como em alguns personagens interpretados por ele. Ao contrário de Forrest Goodluck que, apesar da pouquíssima experiência cinematográfica, deixa transparece o trauma enfrentado pelo seu personagem e a afetuosa relação deste com o personagem de DiCaprio. Merecem destaque, também, os atores que fazem os índios das etnias Arikara e Pawnee, como Anthony Starlight, que interpreta o chefe do grupo da primeira, em seu segundo longa na vida; a atriz Melaw Nakehk’o, que faz a filha do personagem de Starlight e Arthur RedCloud, que interpreta o índio que acaba ajudando para Glass.

Quem deve ter sofrido tanto quanto os atores foi o diretor de fotografia, Emannuel Lubezki. Lubezki costuma trabalhar com Iñárritu, como em Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância). O trabalho dele deve ter começado quando o diretor mexicano exigiu que o longa inteiro fosse filmado apenas com luz natural. Provavelmente, precisou-se de inúmeras câmeras diferentes para possibilitar aa captação das várias luminosidades. Isso, sem falar, dos ótimos enquadramentos e movimentações utilizados por ele. Há inúmeras cenas maravilhosamente bem filmadas, como a cena de luta com a ursa, por exemplo. Esta foi realizada em um plano-sequencia no qual a câmera é aproximada ou afastada do Leonardo DiCaprio ao longo dela. Ou a cena do encontro do personagem do ator com um índio Pawnee em viagem. Além de muitos planos longos, nos quais a câmera gira usando um ator como centro do círculo e depois é apontada para o céu e retorna mostrando outro ator entrando em cena.

Quem deve ter tido muito trabalho, por ter várias dúvidas sobre o melhor momento para se cortar a cena foi o editor Stephen Mirrione. Ele também trabalhou em Birdman e faz um trabalho que demonstra o cuidado com as imagens filmadas e com a história a ser contada. Quando na história se faz necessário um corte, Mirrione sabe o que fazer com precisão. Ele produz o ritmo certo.

Outro trabalho que precisa ser citado como destaque em O Regresso é sem dúvida a maquiagem. Os ferimentos, as cicatrizes e a sujeira que inúmeros personagens sofrem ou têm são bem feitas. Porém, existem alguns deslizes de continuidade, exatamente, neste quesito. Um exemplo disso é o do personagem Hawk. Quem merece, também, um destaque neste filme é o design de produção. Fazer este trabalho neste filme não deve ter nada fácil. Os diferentes sets exigidos por Iñárritu, as cenas de perseguição com cavalos, o treinamento exigido dos atores devem ter sido situações que consumiram muito tempo de trabalho.

Trabalho este que também deve ter tido os compositores Carstein Nicolai e o Ryuichi Sakamoto. O compositor alemão e o compositor japonês, porém, conseguiram criar uma trilha envolvente. Inclusive, porque, algumas vezes durante o filme, ao invés de fazer reforçar a tensão, até um pouco excessiva neste filme, ela acaba contrastando e sendo mais calma do que a situação mostrada.

Pode-se dizer que a natureza – da Terra e a do homem – é a grande personagem do O Regresso. Huge Glass, como todos ali, está apenas reagindo aos acontecimentos que surgem diante dele. Esses acontecimentos, porém, fazem aflorar o caráter de cada um. Revelando, enfim, em quem se deve confiar ou em quem se deve dar um tiro.

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