Crítica | Ave, César!

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Os irmãos Coen são de uma versatilidade ímpar, indo da comédia rasgada ao faroeste com a mesma qualidade técnica e narrativa. Realizadores notáveis, eles conseguem dar uma cara muito particular às suas obras, sabendo de longe que aquele é um filme dos Coen mesmo com tantos temas e gêneros diferentes.

Dessa vez, os cineastas voltam à comédia em sua forma mais escrachada, lembrando em partes filmes como Queime Depois de Ler (2008) e até mesmo o sucesso cult O Grande Lebowski (1998), colocando todo seu humor ácido nos tempos de ouro de Hollywood, o auge do Star System e das grandes estrelas. Ave, César! não é só uma homenagem ao próprio cinema, mas também uma grande crítica a esse sistema que ainda resiste na indústria cinematográfica americana.

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É interessante analisar esse recorte que os Coen decidem filmar, uma vez que o projeto de cinema dos realizadores é calcado exatamente numa cinefilia, numa criação e subversão dos gêneros cinematográficos, assim é como se os irmãos chegassem ao cerne de suas próprias referências e, até, do seu próprio cinema. Assim é um deleite para os Coen filmar à moda antiga, a direção de arte e a fotografia remetem aos filmes clássicos, naquele aspecto que sente-se a construção da ficção por parte do cinema, não há uma tentativa de reprodução dura e fiel da realidade, mas sim a construção visual de uma verdade que só se pode nos filmes, e os Coen se divertem com isso.

E Ave, César! é exatamente sobre isso, o cinema é uma construção e Hollywood e suas figuras são igualmente ficcionais. Sendo assim, o filme cria uma série de personagens que desenvolvem seus dramas e dilemas nesse faz de conta que é a Hollywood dourada, com toda esquizofrenia e problemas temperamentais das estrelas é o gerente do estúdio que tem que organizar e reger todos a seu redor seja um sequestro, um romance ou uma gravidez indesejada.

É notável como o longa é construído exatamente pelo ponto de vista de um executivo do estúdio, Eddie Manix (Josh Brolin), assim é como se aquela gama de histórias fosse contada pelo homem comum daquele mundo, o homem que vem da vida real para dirigir as ilusões de atores que não passam de ficções. E os Coen deixam essa característica bem evidente ao apostar em personagens bem caricatos, percebe-se a superficialidade de suas personas, como se o protagonista do filme (e por que não os diretores de Ave, César!) estivesse a cima daquele mundo tendo extrema capacidade para manipulá-los e colocar ordem naquele local.

Assim, o filme parte para uma comédia do bizarro, é no modo estranho que aquelas figuras se comportam e nas situações nada convencionais que elas se colocam, e é nesse descompasso entre mundo real e o modo ficcional que essas personagens agem. E aqui é inútil ficar tentando encontrar sinopse para de alguma forma tentar sintetizar o filme, sendo este estruturado de tal forma em que não há um grande plot colocado desde o início a ser resolvido, mas sim uma relação de fatos e episódios inesperados na qual todas as personagens do estúdio parecem se conectar, mesmo não partilhando as mesmas histórias.

Este descompasso é encontrado nessa própria estrutura do roteiro, é nessa habitual quebra de expectativa que o longa busca pelo próprio desequilíbrio, não estando preocupado em fechar todas as pontas, ou explanando tudo o que acontece, e como nos filmes aquelas loucuras todas se resolvessem de uma hora para outra. Afinal tudo é construção.

E em Ave, César! tudo é pura ilusão, na sua crítica à Hollywood, os irmãos Coen procuram mostrar que todas as relações mostradas ali, seja nas telas ou fora delas são muito bem pensadas por mentes que estão por toda indústria do cinema, e os Coen conseguem fazer piada com isso.

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