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Crítica | De Onde Eu Te Vejo

Publicado por Giovanni Rizzo

06/04/2016 00:47

É interessante notar como a cidade de São Paulo é pouco explorada no cinema comercial brasileiro. Se os filmes realizados visando o grande público sempre utilizam o Rio de Janeiro e as belas paisagens naturais como pano de fundo, a capital paulista fica relegada a um filme que mostra sempre a cidade em confronto ao cidadão, como no excelente Obra (2014). No entanto as belezas, ainda que cinzas, de São Paulo são pouco vistas e De Onde Eu Te Vejo é uma tentativa de encontrar sutilezas e romantismo no concreto paulistano.

E nesse sentido, De Onde Eu Te Vejo é uma carta aberta de amor à cidade, utilizando todos os pontos marcantes de São Paulo como palco de fundo para sua narrativa, transformando o cenário em muito mais do que uma simples ambientação, mas sim mais um personagem central da narrativa. Dirigido por Luiz Villaça e estrelado por Denise Fraga e Domingos Montagner, o filme é uma comédia romântica que acompanha um casal há mais de 20 anos junto que durante uma crise de relacionamento decide se separar, mas morando um de frente para o outro.

Assim, o longa vai muito mais para o romance do que para a comédia, diferenciando-se um pouco do monótono cinema industrial das comédias brasileiras e com isso o diretor buscar preencher todo seu filme repleto de momentos cheio de romantismo, cercados por uma melancolia reflexiva em torno dos relacionamentos, e da própria cidade presente na vida do casal. Dessa maneira, De Onde Eu Te Vejo tenta seguir por um caminho semelhante a um estilo de filme como Antes do Amanhecer, no qual os diálogos tentam dizer mais do que a própria trama.

Com essa estratégia, o filme aposta em algumas figuras que servem menos como personagens que carregam a narrativa adiante, mas sim como pontos de reflexão, figuras que geram epifania nos personagens em relação que vai além da superfície do roteiro, e isto é o que mais funciona em De Onde Eu Te Vejo. No entanto, quando o longa parte para uma tentativa de criar uma gama de figuras que constroem a narrativa há uma grande falha, alguns personagens secundários são mal trabalhados e parecem que não cumpriram as expectativas dos realizadores e são abandonados; por exemplo, um personagem que parece ser um futuro interesse amoroso da protagonista, que após alguns momentos de tela simplesmente não é mais citado, ou desenvolvido, criando algumas barrigas enormes no roteiro do longa.

Ainda com suas irregularidades De Onde Eu Te Vejo tem seus bons momentos, por exemplo, a maneira que Villaça conduz o espaço dramático, muitas vezes os dois apartamentos são filmado como se fosse um só, materializando a dificuldade daquele casal em se separar, ainda que haja uma rua de distância. Além disso, o filme propõe algumas quebras da quebra da quarta parede, quando o personagem fala diretamente com o espectador, que fazem uma empatia com os protagonistas muito mais intensa, também há situações que o longa cria momentos em flashbacks que parecem de fato frutos da memória, em que os personagens conseguem apenas se ver como se encontram hoje, evidenciando as marcas do tempo naquele romance.

Assim, mesmo que De Onde Eu Te Vejo apresente algumas irregularidades, o filme apresenta uma série de momentos agradáveis e que utilizam de maneira muito interessante os pontos marcantes de São Paulo para construir uma divertida história de amor.

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