Crítica | Decisão de Risco

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George Orwell revela em seu livro 1984 – adaptado para o cinema em 1985 – como uma totalitária sociedade futurista vigia os passos de seus cidadãos através das teletelas que exibem, mas, ao mesmo tempo, transmitem tudo que estiverem à frente delas. Estar sob vigilância não é novidade para os cristãos – sejam católicos, sejam evangélicos –, porque sabem que Deus é onipresente. Mas Ele não é mais o único que dos céus vigia as pessoas da Terra.

O filme Decisão de Risco – em inglês, Eye in the Sky, que, em uma tradução literal, seria Olho no Céu – deixa claro como os países desenvolvidos, como Reino Unido e Estados Unidos, através de drones, conseguem monitorar qualquer pessoa, em qualquer lugar. A trama de Decisão de Risco conta sobre uma operação militar do Reino Unido. Sob o comando da Coronel Katherine Powell (Helen Mirren, de Trumbo), a operação envolve, além do Reino Unido, os Estados Unidos e o Quénia. O objetivo é capturar dois britânicos que integram uma célula do grupo terrorista da Somália, Al-Shabaab, existente naquele país da África Oriental. Além desses, um jovem norte-americano também faz parte da célula.

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Sob a coordenação britânica, em uma base militar no estado de Nevada, nos Estados Unidos, militares norte-americanos pilotam remotamente um Reaper – drone militar – sobre o céu de Nairóbi, no Quênia. O drone é controlado pelos tenentes Steve Watts (Aaron Paul, da séria Breaking Bad) e Carrie Gershon (Phoebe Fox, de A Mulher de Preto 2: O Anjo da Morte). Ele o pilota, enquanto ela cuida dos procedimentos de observação. Os dois tenentes são orientados e observados pelo Coronel Ed Walsh (Gavin Hood, o diretor do filme e que atuou em Ender’s Game: O Jogo do Exterminador).

Em Londres, no gabinete do Ministro da Defesa Brian Woodale (Jeremy Northam, de Criação), se reúnem ele, o General Frank Benson (Alan Rickman, da franquia Harry Potter), o procurador-geral George Matherson (Richard McCabe, de Cinderela) e Angela Northman (Monica Dolan, de Orgulho e Esperança) que observarão a operação comandada pela Coronel Powell. Em Nairóbi, dois agentes secretos do país estão próximos a casa onde ocorrerá o encontro dos terroristas. Um desses agentes é Jama Farah (Barkhad Abdi, de Capitão Phillips). Os dois utilizam microdrones para espiar mais de perto os terroristas e identifica-los para confirmar a presença de todos. A postos, mas um pouco mais afastado, estão os militares quenianos esperando ordens para irem e cercarem a casa.

O plot pensado e escrito pelo inglês Guy Hibbert (Rastros de Justiça, 2009) é fantástico por duas razões. Primeira, porque, apesar do evento ser totalmente ficcional, ele pode, um dia, acontecer. Apesar de algumas tecnologias utilizadas ainda não existirem – até onde se sabe, todo o processo mostrado pode ocorrer de verdade. O que acontece é quase uma idealização de operações militares as quais ocorrem atualmente. Segunda razão é que a história gera nos espectadores uma tensão constante que os prende na cadeira do cinema até o final do filme. Final este, aliás, que levanta várias questões sobre o poder, a coragem e a covardia. É interessante imaginar se o que é mostrado no longa – a cadeia de comando integrada por autoridades civis e militares de três países diferentes – ocorre normalmente em operações de combate ao terrorismo global hoje em dia.

O elenco, como um todo, deixa transparecer toda a tensão e o nervosismo gerado pelas decisões que precisam ser tomadas rapidamente e estritamente dentro das leis nacionais e internacionais durante a operação militar. Helen Mirren passa autoridade e a ansiedade que a Coronel Powell tem ao estar no comando da operação. Em seu último trabalho, Alan Rickman, – o ator morreu em janeiro deste ano –, também interpreta bem o General que é a ponte entre os militares e o comando civil. Alan deixa claro que o seu personagem precisa exigir de seus superiores civis as respostas que a operação precisa para seguir em frente.
Os atores Jeremy Northam, Richard McCabe e Monica Dolan, cujos personagens formam o conselho civil que observa a operação, atuam perfeitamente mostrando como as decisões que cada um de seus personagens precisa discutir para que a operação siga em frente são pesadas e têm consequências que superam o tempo e o território em qual a decisão é tomada.

Os atores Aaron Paul, Phoebe Fox e Gavin Hood também fazem boas interpretações. Apesar de seus personagens serem apenas executores das ordens vindas do Reino Unido, a preocupação sobre a operação e sobre a legalidade dos passos dados fica claro por meio das interpretações dos dois. Um merecido destaque vai para o ator somali, Barkhad Abdi. Ao fazer um agente secreto, Barkhad mostra muito bem a dificuldade de ação em terra.

Gavin Hood (X-Men Origens: Wolverine, 2009), além de atuar, também é o diretor de Decisão de Risco. Gavin realiza uma produção simples. O longa não tem muitas firulas e nem muitas cenas de ações em excesso, porque o foco é concentrado nos trâmites da operação. A história em si já é tensa, não havendo necessidade reforça-la com cenas cheias de movimento de câmera.

Falando em câmera, a direção de fotografia do cipriota, Haris Zambarloukos (Cinderela, 2015), está corretíssima. Ele usou o close-up na medida certa. Quando a cena necessitava mostrar a tensão dos personagens, ele o usava. Senão, usava um plano mais aberto para deixar clara uma ação que precisava do contexto para que o público a entenda. Alguns diretores de fotografia têm exagerado nos close-ups, muitas vezes sem necessidade. O uso indiscriminado acaba, às vezes, deixando produções que não precisavam excessivamente tensos. Neste filme, por exemplo, se Haris exagerasse na aproximação da câmera, isso poderia acontecer.

A trilha sonora ficou a cargo dos compositores Paul Hepker e Mark Kilian. O zimbabuano e o sul-africano, respectivamente, já tinham trabalhado juntos em O Suspeito (2008). Paul e Mark também não sobrecarregaram nas trilhas compuseram para o filme e souberam deixar espaço para que a tensão fluísse da tela através da história sem que o trabalho deles pesasse ainda mais na produção.

E a edição de Megan Gill deixa o longa na medida certa. Sem ser acelerado demais, sem ser lento de demais. Desta forma, apesar de a história ter, no mínimo, quatro locais diferentes onde as ações acontecem quase ao mesmo tempo, a montagem dela consegue deixar bem clara a sequência de eventos.

O filme Decisão de Risco faz com o que o(a) espectador(a) saia do cinema se questionando sobre os limites do uso da tecnologia no combate ao terrorismo e o que ele ou ela faria caso estivesse em uma posição de mando quando confrontado com situações em que a vida de um outro ser humano está sob a sua exclusiva decisão. A quem ou ao que apelaria o(a) espectador(a) para saber o que decidir?

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