Não é novidade para ninguém saber que o cinema chegou a um patamar que quase tudo já foi feito nas telas, em termos técnicos e narrativos, pelo menos no cinema clássico-narrativo, quase tudo já foi testado, parâmetro já foram subvertidos e até as tramas mais engenhosas parecem batidas. E mesmo com essa lógica algumas histórias parecem acreditar que são grandes novidades, acreditando que suas surpresas podem segurar um filme todo, sendo que na verdade elas são totalmente previsíveis.

E parece que Mente Criminosa realmente acredita ter um dos melhores plots e parece se descuidar de todo o resto. O longa conta a história de um psicopata que passa por uma experiência da CIA, na qual todas as lembranças, habilidades e segredos de um agente morto em combate são transferidos para sua mente. Uma ideia com certo grau inventivo e que poderia ser muito bem explorado.

E até certo ponto o filme desenvolve isso com algum sucesso, ao colocar em dúvida o próprio experimento, ao protagonista não se tornar o mocinho de uma hora para a outra e propor uma batalha na própria mente desse anti-herói em dúvida sobre quem ele realmente é. Dessa forma, com essa crise de identidade implantada, a figura do ‘bandido’, o personagem de Jericho (Kevin Costner) vai assumindo a missão do mocinho, Bill Pope (Ryan Reynolds), mesmo sem querer como se também o destino de um tivesse passado para o outro. Mas boas ideias não fazem um roteiro bom, muito menos um filme interessante.


Dessa forma, excluindo esse primeiro ponto Mente Criminosa tem um roteiro que chega próximo ao desastre, apostando em personagens clichês e maniqueísta, na qual o bem e o mal é extremamente bem definido. Na trama há o perigo do anarquista espanhol que quer acabar com o mundo, uma superficialidade por si só, mas nem mesmo como vilão essa figura tem potencial, tornando-se bem menos interessante que a disputa psicológica de Jericho, o longa não consegue mesclar os conflitos internos e externos com a mesma eficiência. E o que mais incomoda é essa caracterização exagerada dos personagens, o agente da CIA com a personificação da bondade e dos interesses mais puros, enquanto Jericho o criminoso sem perspectiva nenhuma, um desumanizado, a encarnação do mal. E isso se reflete até nos personagens secundário como o caso do executivo da CIA que encarna o papel do chefe linha dura que cobra toda a sua equipe.

E assim, Mente Criminosa vai desperdiçando passo a passo seus potenciais. Com personagens tão mal resolvidos chega a ser triste ver bons atores como Kevin Costner, Tomy Lee Jones, Gary Oldman em situações que não beneficiam suas habilidades, talvez por isso pareça que todos eles estejam atuando num modo automático, tanto personagem quanto atores entregam muito pouco. Parece que nesse constante descompasso que é Mente Criminosa Gal Gadot é a única que tenta mostrar algo além, com uma personagem um pouco melhor trabalhada, a esposa do agente morto que não é a mulher pintada como ideal pelo cinema, aquela que irá ficar apenas na cozinha enquanto o homem salva o mundo, mas que briga muito para conquistar seus objetivos e ao mesmo tempo consegue entregar bastante emoção a seu personagem. Mas também é sabotada pelo texto do filme, que faz Gadot liderar o núcleo do sentimentalismo no filme.

E assim parece que Mente Criminosa quer comprovar alguma tese, de que apenas o amor e a afeição poderiam colocar aquele criminoso no caminho do bem, e nesse núcleo é um sentimentalismo vomitado na tela, para que essa curva de Jericho funcione, mas só demonstra uma incrível falta de sensibilidade para com o drama, realizando algo que soa muito mais piegas do que qualquer coisa. Com isso, esse senso da redenção proposto pelo filme vai por água a baixo.

Dessa forma, o filme não funciona em nenhum âmbito, se essa jornada do anti-herói é mal planejada e apelativa, as longas sequências de ação são de uma confusão espacial, estética e narrativa. Seguindo o que vem sendo realizado sempre no cinema de ação atualmente, o diretor Ariel Vromen aposta numa câmera frenética, que tenta inserir o espectador na ação, mas a turbulência da imagem é tão grande que quase não se entende o que está acontecendo, não se contextualiza os atos e as batalhas, apenas se vê o sangue após o combate.

É assim que Mente Criminosa não consegue levar sua ideia a outra esfera, acreditar que só ela é o essencial do filme, é desperdiçar toda a construção que o longa poderia ter. E algo que poderia ter algum diferencial apresenta um resultado bastante ruim.