Crítica | O Dono do Jogo

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O subgênero do filme de esporte é algo constantemente presente no cinema. O ponto nos últimos segundos, a defesa incrível que salva o time, a superação que vira a partida num golpe inacreditável. Essas são figuras permanentes nesse tipo de filme, os esportes representados sempre parecem ter a emoção como sua principal característica, retratando o futebol americano, o nosso futebol, as artes marciais, até mesmo surf, vôlei e tênis, como se todos esses fossem sempre essa demonstração de adrenalina, e é então que um filme coloca o xadrez como centro das atenções.

Em O Dono do Jogo é narrada a história verídica de Bob Fischer, o Pelé do xadrez, um jogador extraordinário que desde criança demonstrava todo seu potencial e logo traçava uma meta de desafiar os maiores jogadores de sua época, os russos em pleno auge da Guerra Fria. Diante disso esses constantes desafios entre Fischer e os soviéticos ganhavam outros significados sendo mais um exemplo de embate ideológico nesse tenso período histórico.

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E o veterano diretor Edward Zwick consegue deixar as partidas de xadrez de fato algo bastante interessante, transparecendo uma emoção que apenas quem joga deve conhecer. Com um estilo conciso, o cineasta consegue fazer um filme bastante funcional, buscando essa excitação através do esporte e o drama em relação a mente conturbada de Fischer, alternando momento de tensão psicológica com tensão esportiva e nisso realmente funciona.

O Dono do Jogo é aquele tipo de filme que necessita mostrar a todo o momento que é baseado em algum fato real importante de se colocar em pauta, assim por muitas vezes utiliza-se de uma série de planos e falas totalmente explicativas e que até certo ponto incomodam. Além disso, muitas vezes o longa trata o complexo tema da Guerra Fria com certa ingenuidade, não problematizando o duro conflito que os dois países colocaram o mundo todo e até mesmo culpando a URSS pelas perdas de contingente na China e na famosa guerra do Vietnã, parecendo realmente acreditar que um campeonato de xadrez pudesse reparar os danos causados por essas guerras que os EUA se envolveram.

Se em termos políticos o filme chega até ser infantil, é interessante como ele constrói o xadrez e seu protagonista como as perfeitas metáforas daquele tempo histórico. O esporte que coloca frente a frente dois oponentes, num conflito totalmente intelectual e estratégico, que qualquer movimento em falso representa o fim do jogo, um estudo constante de seu adversário e de seus movimentos, assim como a própria Guerra Fria, que utilizava o mundo como seu próprio tabuleiro. E se o conflito não armado entre EUA e URSS era essa disputa ideológica entre duas potências, isso causou nos cidadãos de todo o mundo uma paranoia inacreditável, que parecia estar sempre à beira de uma guerra nuclear que poderia acabar com o planeta, e Bob Fischer no filme é a personificação dessa paranoia.

A mente conturbada do xadrezista, sempre perto de um colapso, na qual qualquer ruído era capaz de arruinar seu jogo e entender que um simples tossido fazia parte de uma incrível teoria da conspiração, naqueles tempos o mundo vivia assim, qualquer atitude poderia ser considerada uma subversão a ordem, um alinhamento com a ideologia x e y e esse medo conturbava e atrapalhava o mundo. Nesse sentido esse é o grande mérito do filme, essa construção metafórica de um longo período sombrio da história.

Assim, se como filme esportivo O Dono do Jogo demonstra-se competente, em muitas outras situações mostra que tem muito mais para falar, e embora algumas irregularidades é um filme que merece ser descoberto.

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