O futebol é um esporte que está impregnado na história do Brasil. Muitos eventos do país são lembrados usando-se como referência partidas ocorridas em campeonatos estaduais ou no nacional. As Copas do Mundo – de quatro em quatro anos – são o auge desta manifestação esportiva que acabou se tornando quase uma religião por estas bandas do mundo. A história pessoal de muitas pessoas é marcada por jogos de futebol – seja do time do coração, seja de times cujos jogadores se destacam na arte da bola nos pés.

O diretor brasileiro Sérgio Oksman, através do seu documentário O Futebol, mostra como este esporte pode ser uma das poucas lembranças de infância existente que um filho mantém do pai ao longo da vida. Especializado em fazer documentários – seja para televisão, seja para cinema – Sérgio foca em um aspecto pouco explorado em documentários esportivos: a memória afetiva dos espectadores e como esta se relaciona com suas vidas pessoais.

Exibido no ano passado no Festival de Locarno, Suiça, O Futebol mostra o reencontro de pai e filho em São Paulo durante a Copa do Mundo, em 2014. Sérgio, o filho, está radicado na Espanha há 20 anos e realizou por lá documentários sobre personalidades e times de futebol do Brasil e da Europa. Simão Oksman, o pai, permaneceu em Brasil e é dono de uma pequena loja que consertas aparelhos eletrônicos.


A câmera de Sérgio acompanha Simão, judeu descendente de poloneses nascidos em Ourinhos, interior do estado de São Paulo, nas mais diversas situações enquanto os jogos da Copa vão rolando pelo país. O clima em qual o evento acontece fica evidente conforme Simão anda pela cidade para trabalhar ou passear com seu filho.
Apesar de parecer contraditório, o documentarista filma seu pai de uma maneira quase ficcional. É como se não estivesse ali uma pessoa de verdade, mas sim um personagem. Personagem este com o qual Sérgio interage. Ele questiona seu pai sobre o que Simão fez quando se separou da mulher, quando o diretor tinha apenas cinco anos ou sobre se ele não iria assistir aos jogos no estádio do Itaquera: “a Copa não paga minhas contas”, lhe respondeu o pai.

Não existe trilha sonora. Este média metragem é recheado de cenas nas quais apenas os sons ambientes são ouvidos. Esses silêncios deixam evidentes as tensões existentes entre pai e filho e entre as pessoas que acompanham os jogos pela televisão. Os silêncios, também, reforçam as imagens da cidade vazia durante os jogos do Brasil e acentuam a comemoração dos gols marcados pela seleção.

A fotografia é equilibrada e tenta ao máximo concentrar o foco no pai. Ele quase sempre está no meio do plano. Nas cenas que mostram o contexto no qual Simão Oksman está inserido, a câmera é posicionada como se alguém estivesse espionando aquele senhor de cabelos brancos.

A sequência de cenas é baseada nos dias de jogos. Geralmente, onde e o que Oksman pai estava fazendo durante a principal partida do dia. Quando não havia jogos acontecendo, as cenas tendiam a permanecer no que se estava sendo mostrado anteriormente.

O documentário acaba se tornando melancólico e contemplativo ao se aproximar do seu final – obviamente, também da final da Copa – não só por causa da derrota brasileira para a Alemanha por 7 a 1, mas mais por razões inesperadas que aconteceram ao longo da permanência de Sérgio no Brasil com o pai durante o evento.
Mais lembranças pessoais ligadas aos eventos futebolísticos foram criadas ao final de O Futebol. O que é contando nesse média metragem é exemplo de como o esporte marca a vida de milhões de brasileiros de diversas formas – seja de forma alegre, seja de forma triste. E como esses sentimentos acabam influenciando a vida daquelas pessoas.

O Futebol