Crítica | Alice Através do Espelho

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Há seis anos, chegava aos cinemas a visão de Tim Burton para o clássico Alice no País das Maravilhas, numa primeira tentativa de revitalizar os mitos dos estúdios Disney com Burton era a possibilidade de trazer um toque mais autoral a já conhecida história. No final, Alice não foi nem o sucesso de público nem de crítica que a Disney esperava, mas com os recentes sucessos do estúdio na nova roupagem dos clássicos, reviver Alice e suas aventuras no País das Maravilhas poderia ser uma boa estratégia. No entanto, serve como uma reflexão do que essa série de continuações e reboots de histórias já conhecidas ainda podem trazer de novo e intrigante para o espectador.

Agora sem Tim Burton na direção, que assina apenas a produção do longa, Alice Através do Espelho acompanha a personagem título anos após o ocorrido no primeiro filme, capitaneando um navio inglês rumo a sua terra natal, encontrando sua mãe em uma difícil situação financeira, tendo que ceder algumas condições de Hamish, o pretendente rejeitado de Alice; e no País das Maravilhas, a garota encontra o Chapeleiro Maluco à beira de um colapso depois de encontrar um objeto que evocou a morte de toda sua família; com isso só Alice é capaz de voltar no tempo para consertar o passado de Chapeleiro, mas para isso terá que enfrentar o Tempo em pessoa (literalmente), o vilão da história.

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Com isso, desde o início, o roteiro desse novo filme parece bastante pretensioso, seja nos seus temas ou na sua construção narrativa, no entanto, dificilmente cumpre suas apostas. Escrito por Linda Woovelton, o longa busca trazer uma história mais inventiva apostando nas viagens temporais de Alice como a grande sacada do roteiro, no entanto, é exatamente esse elemento que deixa Alice Através do Espelho com um estrutura extremamente confusa, necessitando de uma alta dose de verborragia explicativa para uma compreensão mínima do público com as ideias do longa – desde o funcionamento da máquina do tempo até as próprias missões e atos que Alice deve cumprir, tudo explanado através de longos diálogos. Outra questão é que justamente a ideia central de Alice Através do Espelho, suas viagens através do passado do País das Maravilhas, muitas vezes funciona como simples justificativa para flashbacks que, mais uma vez, são meramente explicativos, servindo como uma muleta narrativa e evidenciando os diversos buracos que há no roteiro de Alice Através do Espelho.

O lado positivo do roteiro de Linda Woovelton é colocar a representatividade feminina em pauta num filme com esse porte, desconstruindo certos estereótipos bastante disseminados por Hollywood. Alice em todos os momentos do longa é a mulher que subverte a lógica do sexo frágil, da subserviência e da impossibilidade de escolher o seu destino. Bem verdade que essa temática muitas vezes surge jogada na trama com uma fala expositiva, sem sutileza narrativa para abordar isso, mas colocando a questão mais nas falas da personagem do que em suas ações. No entanto, é necessário colocar essa questão com urgência nos grandes blockbusters, e nesse quesito Alice Através do Espelho atende essa demanda.

E não é só Linda Woovelton que peca na falta de sutileza ao retratar seus temas: o diretor James Bobin constrói um longa baseado totalmente no exagero. Alice Através do Espelho é de uma extravagância visual que chega a incomodar, numa tentativa de buscar certa independência ao estilo de Tim Burton, mas tendo que manter parte visual da obra intacta, Bobin fica num meio termo que gera uma confusão visual absurda, criando um mundo graficamente vazio. Bobin foge de uma autoria para não ter que se comparar a Burton e com isso acomoda-se numa construção visual digital que se insere apenas no lugar comum dos filmes de fantasia. O diretor leva Alice Através do Espelho sem criatividade, apenas com uma extravagância visual que não acrescenta ao filme, só dá a ele uma roupagem totalmente genérica.

E essa generalização é perceptível em todos os aspectos fílmicos, um deles é atuação de todo o elenco de Alice Através do Espelho. Parece que buscando uma performance um pouco mais fantasiosa, os atores oferecem performances que fogem totalmente da espontaneidade, mesmo nessa chave um pouco mais onírica a atuação não convence, pois causa uma rigidez no elenco, todos ficam um pouco acima do tom e muito pouco crível. É interessante notar como tanto Anne Hathaway e Helena Bohan Carter entregam atuações muito abaixo dos seus recentes trabalhos; a primeira exatamente engessada em seu papel de nobre Rainha Branca e a segunda que aparece sempre gritando e berrando, não dando nenhuma sutileza a seu personagem (Rainha de Copas), mais uma vez o exagero mostra-se evidente em Alice Através do Espelho.

E o que chama atenção nessa retomada do País das Maravilhas é como a fantasia de Alice tem pouquíssima relação com sua realidade. Algo muito forte e presente nos escritos de Lewis Carrol, aquele mundo nunca foi um escapismo para a personagem, mas sim uma maneira lúdica da protagonista lidar com seus problemas reais. Aqui essas conexões praticamente nunca são feitas, e quando são, aparecem de maneira apressada para dar uma moral da história. Dessa forma, Alice Através do Espelho cai no grande risco de tornar-se um simples escapismo, na qual a fantasia se conecta de forma escassa com a realidade.

Sendo assim, nota-se certo esvaziamento no mito de Alice nesse novo filme, como se o projeto buscasse algo novo em algo já saturado e torna-se, dessa maneira, o mais simples entretenimento, extraindo o que mais simbólico a história original continha para uma simples aventura, que acrescenta muito pouco no mundo de Alice. Já passou da hora de uma despedida definitiva do País das Maravilhas, pelo menos com essa roupagem.

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