Crítica | Martyrs

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A violência e a crueldade sempre foram temas muito explorados no cinema, desde os períodos mais antigos, esse sempre foi um assunto que chamou muita atenção de realizadores e público. Cineastas como Fritz Lang, Raoul Walsh e Alfred Hitchcock fizeram disso o mote de sua obra mesmo com um intenso código de censura.

Hoje, com a violência podendo ser explorada de forma muito mais aberta, cineastas utilizam a crueldade como própria linguagem de seu filme, explorando os limites do choque, numa clara tentativa de impressionar o espectador, mas a questão que deve ser feita é exatamente quando esse limite é ultrapassado e a violência, a dor e o horror são tão banalizados que nem há mais o choque.

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E com certeza o horror Martyrs passa esse limite. Baseado num filme francês pouco conhecido – não possuindo nem distribuição por aqui – essa versão acompanha duas garotas que buscam pelos responsáveis de seus sequestrados, partindo para uma vingança que acabará em mais tortura para as protagonistas, descobrindo que aqueles sequestradores tinham outros planos para as vítimas. Dessa maneira, o filme é uma sequência de torturas sem fim, em qual só há o martírio sem nenhuma consagração.

E é interessante notar como o longa escolhe mal seu ponto de vista narrativo, ao colocar uma grande dúvida a respeito da veracidade dos fatos contados por uma das protagonistas, até quase a metade de Martyrs o espectador só vê a perturbação da personagem principal, apenas os monstros que assombram uma menina traumatizada, não se vê o trauma e, dessa forma, é impossível compreender uma vingança, na qual não se tem a motivação para um ato tão radical. Martyrs joga seu espectador contra sua própria personagem.

E se sem a empatia para com as protagonistas já é complicado criar o interesse em Martyrs, o roteiro mal estruturado é mais um empecilho para este filme funcionar. E é notável como quase nada funciona, num longa que não se compreende a motivação dos personagens, na criação de um poderosos antagonista que só aparece no terceiro ato, e que é apenas responsável por explicar de forma inteiramente explícita tudo o que estava sendo planejado, numa exposição de conceitos que só comprova o quão mal formulado foi a narrativa de Martyrs.

Assim, parece que os realizadores acreditam que apenas a escatologia é capaz de segurar um filme de 86 minutos, só um pensamento mórbido como esse explica um longa que praticamente abre mão de um bom roteiro e uma condução dessa trama para apenas preparar para os momentos de duras torturas, de longuíssimas cenas de violência – que nem chegam a assustar de tanto sangue que jorra na tela desde os primeiros minutos de Martyrs.

Parece que os realizadores se divertem com aquela situação, a dor e o sangue é o maior atrativo de Martyrs. Nesse sentido, um filme que constrói sua trama exatamente questionando as pessoas que para seu próprio fim exploram e torturam seus semelhantes é engraçado notar como ele age da mesma forma, utilizando aquele pânico para o seu próprio fim, a violência é tão gratuita que não há questionamento, em Martyrs o sangue não é catártico, mas apenas um líquido vermelho que escorre sem sentido algum.

Talvez muitos filmes hoje, e com certeza Martyrs é um deles, colocam a crueldade no cerne de sua obra, antes da narrativa, antes da direção, nesse caso os filmes deixam de ser sobre a violência e passam a ser a própria violência, banalizando qualquer sentimento, ou pensamento, referente a ela. Martys é só sangue, é só crueldade, não há cinema nesse sentido.

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