Crítica | O Conto dos Contos

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“Era uma vez…”: esse é o inicio clássico dos contos de fadas contados para as crianças atualmente. Mas nem sempre este formato foi apenas para essa parte do público. Muitas histórias tiveram sua origem no livro O Conto dos Contos, do escritor napolitano Giambattista Basile, lançado após a sua morte em 1634. As primeiras versões de Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel, Gato de Botas, por exemplo, estão presentes neste livro.

Porém só em 2015, no 68º Festival de Cannes, estreia um filme baseado diretamente nas histórias contidas no O Conto dos Contos. Com o mesmo nome, o filme narra três histórias paralelas em três reinos diferentes.

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No primeiro reino, o de Longtrellis, a rainha (Salma Hayek, de Ensina-Me o Amor) está inconsolável, porque não consegue engravidar. O rei (John C. Reilly, de Guardiões da Galáxia) tenta de todas as maneiras fazê-la feliz. Em uma noite, surge um mago que diz qual a maneira pela qual a rainha possa engravidar. Essa maneira envolve um animal marinho e um coração cozinhado por uma virgem sozinha. Porém, o mago alerta que para surgir uma nova vida, uma tem que perecer.

Já no reino de Strongcliff, o devasso rei (Vincent Cassel, de Crimes Ocultos) ouve uma voz encantadora. Hipnotizado, ele percorre o castelo atrás dela. Ele encontra-a e quer a todo custo se deitar com a pobre jovem que tinge lã cuja melodiosa voz, ouviu. Porém, a voz não pertence necessariamente a uma encantadora e jovem mulher. Imma (Shirley Handerson, de Em Segredo) e sua irmã, Dora (Hayley Carmichel, de As Novas Roupas do Imperador), entretanto, não deixarão que a sorte que bate a porta delas seja desperdiçada.

E por último, no reino de Highhills, o rei (Toby Jones, de Capitão América: O Primeiro Vingador) fica maravilhado quando uma estranha pulga que sabe fazer truques e se deixa ser amestrada, surge. Mesmo tendo o reino para governar e uma filha adolescente, Violent (Babe Cave, em seu segundo longa) querendo se casar e sair dos muros do castelo para cuidar, o rei começa a dar atenção só a esse estranho animal de estimação.

A escolha desses três contos do livro de Giambattista foi muito bem acertada por serem histórias pouquíssimas conhecidas do grande público. Repete-se nesse longa, na criação do roteiro, uma trilogia já famosa do cinema italiano: Ugo Chitti, Massimo Gaudioso e Matteo Garrone; este, além de roteirista, também é o diretor do longa. Ugo, Massimo e Matteo trabalharam juntos em filmes como Gomorra (2008) e Reality – A Grande Ilusão (2012). Todos dirigidos por Matteo. Além do trio, participou na criação do roteiro Edoardo Albinatti em seu segundo longa.

O roteiro escrito pelos quatro desenvolve a história dos três reinos de forma independente. Elas se cruzam apenas em dois instantes de transição da história, sem que uma influencie a outra e vice-versa. Apesar de quase não se cruzarem, temas como obsessão, paixão e ilusão fazem parte de todas elas. Os temas vão sendo intercalados entre as histórias conforme essas vão se desenvolvendo. O problema desta maneira de contar a história é que pode deixar o público confuso. Um problema importante do roteiro, mas praticamente o único.

Matteo dirige O Conto dos Contos de forma segura. Percebe-se isso pela forma como os atores atuam, na excelente maneira de filmar e na produção impecável de época. Ele escolheu cenários fantásticos para realizar o longa. Sendo europeu, o ritmo dele é mais devagar, se assemelhando ao de um contar de história mesmo.

Do elenco escolhido, atores como Salma Hayek, Vincent Cassel e Shirley Handerson são destaque. Salma faz uma rainha cuja obsessão e paixão pelo próprio filho ultrapassa qualquer barreira. Vincente Cassel foi a escolha certa para fazer um rei devasso que cai de amores por uma plebeia e acaba sendo enganado por essa paixão. Shirley Handerson faz perfeitamente a irmão submissa e ingênua.

O ritmo, como já foi dito, é diferente do habitual. Com certeza, seria mais intenso se fosse uma produção norte-americana, porém sendo uma produção europeia, ele deixa o público apreciar cada cena e o que nela aparece. A edição do longa ficou a cargo de Marco Spoletini (As Maravilhas, 2014) que já trabalhou com Matteo em outros longas, como Gomorra. Marco fez um excelente trabalho ao juntar as três histórias e dividi-las em “capítulos”, deixando explicito com o fade in, mesmo elas ocorrendo ao mesmo tempo.

A fotografia do polonês Peter Suschitzky (Mapa Para as Estrelas, 2014) foi muito facilitada pelos maravilhosos cenários escolhidos para a filmagem. Cenários existentes na própria Itália, como Castel del Monte, em Adria, e Palazzo Vecchio, em Florença. As cores escolhidas são próximas do real, porém foram reunidas de forma mágica. A arte do filme é esplendorosa e isso fica bem visível com a fotografia de Peter. Assim, como a trilha sonora do músico francês Alexandre Desplat que deixa o longa com uma atmosfera onírica, porém real, ao mesmo tempo.

Apesar da demora em transformarem contos do livro de Giambattista em um filme, o resultado final de O Conto dos Contos é surpreendente. Transformados em um longa de uma boa forma na qual pode ser considerado a maneira pela qual Giambattista gostaria de ter sido conhecido em vida.

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