Crítica | Pais e Filhas

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Por mais que tenhamos as mais incríveis tecnologias, nós sempre iremos prestar atenção em uma boa história, principalmente, quando essa for bem contada. Seja da maneira que for: ouvida em uma roda de amigos, lida em um bom livro, escutada pelo rádio, transmitida por um canal de televisão ou assistida no cinema. E ela acaba permanecendo com a gente depois de conhecida. É sobre o poder cativante de uma história e é uma história cativante a do filme Pais e Filhas.

Um escritor norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer, Jake Davis (Russell Crowe, de Noé), fica viúvo após sofrer um acidente de carro. Por causa do mesmo acidente, no qual bateu forte a cabeça, ele tem sequelas. Por causas delas, Jake acaba sendo convencido por seu médico que é melhor ele se internar em uma clínica psiquiátrica por um tempo. Até para ele poder continuar cuidando da sua pequena filha, Katie (Kylie Rogers, de Milagres do Paraíso). Enquanto o pai está internado, Katie fica com os tios, Elizabeth (Diane Kruger, de A Hospedeira), irmã de sua falecida mãe e William (Bruce Greenwood, de Conspiração e Poder), um importante advogado de família. Os dois acabam se afeiçoando por ela.

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Ao mesmo tempo, 25 anos depois daqueles eventos, é mostrada a vida de Katie (Amanda Seyfried, de Ted 2). Ela está estudando Psicologia e está estagiando em um serviço de assistência social especializado em crianças. A chefa dela, Dra. Corman (Octavia Spencer, de A Série Divergente: Convergente) lhe passa um caso de uma garotinha que desde a morte da mãe não fala, Lucy (Quvenzhané Wallis, de 12 anos de Escravidão). Katie, vez ou outra, sai com algum jovem, mas, em um das baladas que frequenta, conhece o escritor Cameron (Aaron Paul, de Breaking Bad). Desta forma, o longa conta sobre dois momentos na vida de Katie.

Contar uma história na qual duas épocas diferentes são mostradas simultaneamente não é nenhuma novidade no cinema mundial. O filme brasileiro, da diretora Carla Camurati, Copacabana, por exemplo, utiliza-se desse artifício para explicar decisões tomadas pelo protagonista para os seus atos. Ao recorrer a esta ideia, entretanto, o roteirista estreante Brad Desch a utilizou de uma magnifica forma. Ele explica assim as decisões tomadas pela jovem Katie por causa do que viveu a personagem quando era criança.

A história escrita por Brad mostra como o amor de um pai por sua filha não impede que ela tenha problemas na fase adulta. Por mais atenções, preocupações e lutas que ele tivesse por ela, os obstáculos que surgem ao longo da vida – perda da esposa, problemas de saúde, falta de dinheiro – de uma forma ou de outra, alterarão como a jovem se relacionará com as outras pessoas. Pode parecer, em um primeiro momento, ser uma história sensacionalista, porém, não ela não é.

O diretor italiano, Gabriele Muccino, em mais uma produção norte-americana sob suas mãos, demonstra, mais uma vez, que sabe manter uma direção equilibrada. Ele, que dirigiu À Busca da Felicidade (2006) e Sete Vidas (2008), ambos com o ator Wil Smith, consegue fazer com que todas as partes que compõe um filme se complementem para que o todo se sobressaia. Sem carregar demais as emoções que o todo possa despertar no público. Gabriele faz um tipo de trabalho que conjuga uma boa história com as novas tecnologias existentes que possibilitam conta-la de forma que prende mais ainda a atenção das pessoas.

Na atuação dos atores, fica evidente o trabalho de Gabriele com eles. Apesar de ser um ótimo ator, Russell Crowe, em algumas produções, não alcança todo o seu potencial. O que já não ocorre nessa produção. No papel do pai, Russell pôde exercer toda a sua versatilidade como ator. Existem cenas nas quais ele consegue ir da raiva à ternura de forma coerente e precisa.

Amanda Seyfried interpreta uma jovem cujo trabalho será ajudar os outros, porém ela própria parece precisar mais de ajuda do que os que ela ajuda. Amanda faz esta jovem a altura do que a personagem pede. Ela consegue demonstrar as diferentes emoções pelas quais a jovem passa. E ela passa por muitas mesmo. Entretanto, a atriz não deixa a peteca cair em nenhum momento, e ela praticamente carrega metade do filme.
Duas outras atrizes fazem bem os seus papéis na produção: Octavia Spencer e Diane Kruger. Apesar de suas personagens terem pouco espaço, entram em cena no mesmo nível que os demais atores. Também age desta maneira o ator Bruce Greenwood. Por sua personagem aparecer mais e ter mais momentos importantes, o ator Aaron Paul pôde desenvolvê-la melhor, o que deixa transparecer a seu bom desempenho.

Os grandes destaques de Pais e Filhas são as atrizes mirins, Quvenzhané Wallis e Kylie Rogers. Infelizmente, a personagem de Wallis aparece pouco, porém, quando está em cena demonstra a força que essa atriz mirim tem. Já a personagem de Kylie Rogers aparece bem mais e deixa claro que essa outra atriz mirim tem uma versatilidade impressionante. Ambas não aparecem crianças adultizadas em cena. Espero que com elas não aconteça o que acontece com muitos atores mirins que, quando crescem, acabam se perdendo. Parece que acabam duvidando da sua capacidade de atuar quando são adultos.

Muitos enquadramentos de várias cenas têm a força que os filmes clássicos de Hollywood têm. A fotografia ficou a cargo de Shane Hurlbut (Need for Speed: O Filme, 2014). Realmente, parece que ele faz um trabalho com as imagens calcado em filmes clássicos nesse longa. Existem enquadramentos e movimentos de câmera que auxiliam na contagem da história do filme. Shane não abusa, por exemplo, do close para aumentar a tensão em determina cena. Falando em cena, existe uma na qual foi muito bem pensado e realizado o plano-sequência, não cortando assim a emoção transmitida pela personagem. Numa possível diferente edição, essa cena poderia ter sido feita com uma série de tomadas, mas que passaria a emoção errada para aquele momento.

Falando em edição, o mexicano Alex Rodriguez também a realiza de forma que a história possa ser assimilada tranquilamente pelos espectadores. Com precisão, ele monta as cenas de forma coerente e bonita, sem fazer com que alguma fique incompreensível. Os pequenos contos dentro da história principal são começados e terminados de forma precisa por Alex.

Ajudando a dar o clima certo em um grau de tensão correto está a trilha sonora composta pelo também italiano Paolo Buonvino. Esse experiente compositor de trilhas sonoras criou músicas que abraçam as cenas em que são utilizadas de forma suave e sem se sobrepor ao que está em cena. Em alguns momentos, inclusive, algumas delas começam bem depois que a cena se inicia para que o público possa ficar no silêncio, absorvendo ainda o que aconteceu na cena anterior.

Contar uma história é uma arte muito difícil, mas, ao mesmo tempo, muito bonita quando se acerta o como fazer. Pais e Filhas deixa claro que quando uma equipe de cinema está afinada, o filme pode ser um lindo modo de emocionar as pessoas e justificar a existência dessa forma de arte.

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