Crítica | As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Existem filmes que conseguem captar o espírito de uma época, outros ditam tendências estéticas para o restante da década e alguns outros conseguem metaforizar um pensamento político de uma sociedade. Já outras obras audiovisuais se distanciam de tudo isso em busca de ser apenas um divertimento despretensioso. No entanto, alguns longas conseguem captar quase tudo de pior em uma época e se pautar em ideias que parecem funcionar atualmente, mas só demonstram como são caminhos errados a seguir.

E infelizmente a sequência As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras é um desses exemplos, conseguindo ser uma síntese do que tudo que estão fazendo de pior no cinema, principalmente de ação, atualmente. Desde o roteiro às atuações, passando por seu desenho de produção e seu humor, As Tartarugas Ninjas 2 é infantilizado em todos os sentidos, e se seus personagens são adolescentes e se comportam como tal, o longa parece ser comandado por um, parecendo estar sempre ludibriado com a liberdade de suas câmeras, de seus efeitos especiais e até mesmo do provável alcance que seu filme deve ter.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Já é interessante notar como filme, mesmo se tratando de uma continuação, tem a necessidade de reapresentar seus quatro protagonistas e suas características, sendo necessário colocar até um letreiro na tela para mostrar qual o temperamento de cada um. O roteiro não dá conta de explicar nada com suas imagens, apenas com uma verborragia incessante, sendo um filme narrativamente mal estruturado. Nesse As Tartarugas Ninja 2 tudo parece muito acelerado, um roteiro escrito em fastfoward, a velha máxima do texto ágil chegou a sua decadência, pegando o que há de pior na geração internet, os fatos vão acontecendo sem que o espectador se dê conta do que está vendo, os conflitos são tão passageiros que é impossível se identificar com os dramas dos personagens e se preocupar com suas batalhas. Parece que tudo passa num piscar de olhos sem causar o impacto e a mínima reflexão apenas para importar-se com o que está passando a 300 por hora na tela.

Seguindo outra tendência dos blockbusters atuais, o filme é permeado por um tom cômico constante, mesmo com As Tartarugas possuindo esse humor desde sua origem, o filme é incapaz de dosar quando um fato é engraçado ou dramático o suficiente para cessarem as piadas. Nada em As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras é sério, personagens em risco, ou uma profunda crise no grupo de heróis vale a preocupação do espectador, como se o filme julgasse que seu público não está ali para uma empatia dramática com os personagens na tela, mas vale pensar que o entretenimento depende da audiência estar na pele do personagem para sofrer e rir com ela, seja uma tartaruga musculosa ou um soldado em guerra, é necessário à identificação para a diversão, e a falta de uma seriedade mínima dificulta esse processo.

Além disso, seguindo suas tendências, As Tartarugas Ninja 2 aposta num humor fácil, sem querer elaborar algo; surge nas telas piadas prontas, que só refletem um pensamento raso de seu filme e deve conquistar o público de algum jeito, fazendo isso da forma menos trabalhosa. Assim, o longa demonstra possuir um senso cômico extremamente infantilizado, mesmo quando tenta ser no mínimo adolescente, mas seu besteirol consegue ser tão grande que é insultuoso para um público mais juvenil – as piadas do filme, por exemplo, são mais um artifício para pegar seu público na marra.

E o filme é extremamente apelativo: se o espectador mais juvenil com o mínimo de repertório não se interessar na narrativa ou no humor de As Tartarugas Ninjas 2, a próxima alternativa são as belas pernas de Megan Fox. Ainda que seja menos explorada do que no primeiro longa, a atriz segue sendo um produto atrativo para o filme; Fox é menos uma personagem e mais um corpo a desfilar, uma vez que ainda que uma coadjuvante sempre presente no longa são raros os momentos em que ela toma atitude, ou promove a ação sem necessitar da ajuda de um homem ou sem necessitar utilizar seu atributos físicos para conseguir seus objetivos. Os realizadores devem pensar que essa é aposta mais segura para captar seu público, mas se nem isso der certo ainda há grandes explosões.

E haja explosões. Para quem pensa que filmes de ação são fáceis, as obras do gênero não são construídas apenas com pirotecnias. O diretor, Dave Green, tem sérias dificuldades nas sequências de ação, se o roteiro já se demonstra apressado, as sequências mais explosivas são tão frenéticas que é difícil compreender o que acontece em cena. A câmera imparável de Green impossibilita que o espectador entenda o espaço cênico da ação, promovendo, assim, uma desconexão inacreditável com a verossimilhança, mais uma vez dificultando o processo do público sentir o que seus personagens sentem. Com sua roupagem de videogame, o filme tenta criar uma identidade visual mais descolada, que atraia, mais uma vez, os jovens, mas só demonstra como tudo não se passa de artifícios para manter seu público atento a tela. Na herança de Michael Bay, Green não consegue deixar sua câmera estática nem nos diálogos mais banais, estando sempre inclinada e fazendo movimentos aleatórios, como se clamasse por atenção.

Visualmente, essa sequência, só ratifica o mal gosto de seus realizadores ao criarem essa identidade visual do universo das tartarugas mutantes, seja no design de produção, sempre extremamente brilhante, cheio de luzes que não acrescentam numa construção estética interessante, mas sim parecem ofuscantes como uma foto do Instagram saturada demais; mas esse gosto duvidoso é visto, principalmente, na animações dos personagens.

Se as tartarugas causam incômodo desde o primeiro filme, o vilão desse segundo longa chega a ser extretmamente horrível, nem repulsivo, pois não dá medo, porém causa um estranhamento por ser algo tão mal construído. É impossível imaginar o antagonista, Krang, um cérebro gigante, num quadro pendurado no quarto de um fã, sendo um personagem incapaz de conquistar como os vilões emblemáticos conseguem, vide Darth Vader. Há a necessidade de que até o mais deplorável antagonista simpatize com o público e muito disso parte de sua aparência, o cinema passou épocas realizando imagens que petrificam as audiências, sejam eles heróis ou bandidos, e As Tartarugas Ninjas 2 consegue jogar isso fora em 112 minutos.

Para uma coisa As Tartarugas Ninja: Fora da Sombra serve: pode ser bem utilizada como uma cartilha de quais tendências não serem seguidas nesse século XXI. Um filme que consegue utilizar as mais variadas estratégias baixas para conquistar seu público. E se o filme pega todas as tendências atuais chega a ser sintomático que o pensamento que o estúdio julga como mainstrean tenha gerado uma obra tão infantil.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio