Jojo Moyes é o mais novo nome fenômeno no mercado literário; sua novela extremamente romântica, Como Eu Era Antes de Você, vendeu mais de três milhões de cópias no mundo inteiro, conquistando inúmeros seguidores. A adaptação para o cinema era questão de tempo e agora chega ao público com Emilia Clarke (a Daenerys de Game of Thrones) e Sam Clafin (Simplesmente Acontece) e muito provavelmente deve repetir seu bom rendimento também nas bilheterias.

Assim como o livro, Como Eu Era Antes de Você é uma fórmula ambulante de sucesso, e acreditar que isso é um mero detalhe seria muita ingenuidade. Das músicas açucaradas de Ed Sheeran às belas locações do interior inglês, passando pelo plot, pela persona dos atores e seu envolvimento, tudo funciona. O filme vai da comédia ao drama sempre mantendo seu tom de romance, que agradará todo seu público. Se o longa é hábil a prender seu espectador na história de uma simples jovem que começa a trabalhar como cuidadora de um jovem rico e bonito que acabara de ficar tetraplégico, às vezes comete uma série de deslizes comprometedores, mas também consegue criar momentos que lembram o melhor do gênero, num resultado que é antes de tudo bastante irregular.

Apostando num primeiro ato incrivelmente ágil, o filme da estreante Thea Sharrock, roteirizado pela própria Moyes, parece ter pressa para colocar seus personagens no conflito central, isso gera uma construção de personagens um tanto quanto fraca, que reforça um pouco estereótipos. Em certos momentos, a personagem de Lou (Emilia Clarke) é representada como uma mulher de ingenuidade quase infantilizada, sendo muitas vezes descrita como a garota que compensa sua falta de inteligência por sua bondade. Se isso já soa problemático, Will (Clafin) é num primeiro momento um personagem totalmente miserável que é difícil ter qualquer identificação com ele ou sua dor. Depois do envolvimento dos dois, as coisas começam a ficar mais interessantes, e muito por sua pressa, Como Eu Era Antes de Você funciona apenas após esse embate de personalidades, e o envolvimento até fortalece os personagens que até então não mostravam uma boa construção.


É interessante notar como nesse momento em que o filme ainda não entrega uma relação tão estruturada entre Will e Lou, aposte numa veia mais cômica, convergindo muitas vezes num humor espalhafatoso que beira muitas vezes o pastelão, longe do sutil humor britânico. Nesse sentido é engraçado como o filme julga estar acima de alguns nomes da comédia e do próprio romance, ao satirizar alguns exemplares do gênero.

Em certo momento, Lou vai ao cinema com seu namorado e ela gostaria de ver um filme de Almódovar, já que Will iniciou a garota no cinema europeu, mas seu namorado prefere ver um filme com o Will Ferrell, com toda uma entonação cênica de que aquilo é uma piada. Em outro instante, Lou, também de maneira jocosa, lê um livro da escritora irlandesa Marian Keyes, conhecidas por suas comédias românticas para mulheres. Como Eu Era Antes de Você parece não perceber que está muito mais próximo desses dois exemplares do que qualquer outra coisa.

E se a comédia não é o ponto forte do longa, o romance é o que chama mais atenção, aplicando uma certa inocência em relação ao sentimento a trama inteira, lembrando o melhor do gênero. E isso não significa que o filme exclua a atração física, ou o próprio sexo, mas estes são temas tratados de maneira simples e com naturalidade por Como Eu Era Antes de Você, no caso, inocência não deve ser confundida com ingenuidade.

Assim, o longa encontra o romantismo nos pequenos detalhes, como o ato de Lou em barbear Will, ou ainda um simples ver o outro dormindo, ou um beijo simples que quase não se vê os lábios se encostarem, o romance de Como Eu Era Antes de Você é encontrado nas pequenas coisas e isto é uma grande característica. E nesse âmbito, diferente de sua comédia, o filme entende o seu lugar e não tem medo de assumir as convenções do gênero – o longa mergulha no sentimentalismo e por incrível que possa parecer funciona para Como Eu Era Antes de Você, nas imagens já vistas em diversos outros filmes causa uma aproximação ainda maior daquela história, abrindo a possibilidade do espectador viver aquele romance junto com o casal da tela.

Sequências como a dança em cima da cadeira de roda filmada num travelling circular, ou a despedida após uma festa que Will pede para a garota ficar mais um tempo com ele e uma grua vai subindo enquanto eles ficam a sós naquele momento, lembrando o melhor do cinema romântico. Por mais que essas sejam cenas mais que previsíveis ajudam a dar o tom certo da trama e o romance é o forte de Como Eu Era Antes de Você.

Com todas suas irregularidades, Como Eu Era Antes de Você é longe de ser um filme desagradável. Ainda que não seja um grande filme, o longa consegue manter uma aura do romantismo que sempre existirá no cinema, conquistando quem deseja se apaixonar. Um filme que falha em sua comédia, mas acerta em seu romance.