Invocação do Mal foi um sucesso repentino e instantâneo, conquistando uma legião de fãs e gerando um spin-off (Annabelle) e essa sequência que chega agora aos cinemas. Sob o comando novamente de James Wan, tem o difícil objetivo de surpreender e ser mais uma vez um grande sucesso. Talvez esse último seja alcançado, já a primeira meta é outra história.

Seria injusto dizer que Invocação Mal 2 é um filme comum ou abaixo da média, mas com certeza não é nenhuma obra-prima do terror. E chega até ser estranho apontar isto aqui, pois o longa tem um primeiro ato extremamente bem construído, bem dirigido, tenso na medida certa e assustador, o que indicava ser mais um grande exemplar da frutífera safra de terrores contemporâneos, no entanto isso só revela o quanto Invocação do Mal 2 é um filme extremamente irregular, alternando grandes momentos, com sequências que deixam muito a desejar.

O longa tem início com um prólogo que mostra um caso que quase resultou na aposentadoria dos Warrens, após o tenso momento o espectador é introduzido ao drama dos Hodgson, uma família inglesa que vê sua filha e toda sua casa ser assombrada por um espírito, o fato que choca a Inglaterra é a única coisa que pode fazer os demonologistas voltarem à ativa. Com isso, num primeiro momento há dois núcleos no filme, a vida dos Warrens enfrentando seus conflitos e o início da assombração na Inglaterra. E este início que reside os momentos mais interessantes dessa sequência de Invocação do Mal.


O primeiro ato que foca principalmente na parte inglesa da trama é extremamente bem dirigido, os planos sequências de James Wan fazem com que o espectador tenha a sensação que todo aquele pavor está acontecendo ao vivo. Sem cortes aparentes, o terror é muito mais palatável, nesse momento o ainda jovem (porém já muito experiente) realizador carrega o longa com mãos muito habilidosas utilizando um repertório do terror clássico incrível, referenciando de Iluminado a Poltergeist de maneira orgânica e oferecendo ao filme um rico imaginário visual. Neste momento, Wan oferece um horror muito mais pautado na sugestão, na tensão e na atmosfera do que em aparições horripilantes e grandes sustos. Se Invocação do Mal 2 fosse constituído apenas dessa primeira parte com certeza seria um dos grandes filmes do gênero do ano.

E o abismo é significativo entre esse primeiro ato, parte do segundo com o restante do filme. Muito disso deve-se ao fato de que há uma grande demora para os Warrens se envolverem no caso, esse primeiro momento inteiro o casal nem sabe da existência daquela família e de suas assombrações, isso dá a sensação que o espectador está vendo dois filmes diferentes que se misturam na metade de suas histórias. Nesse momento, há praticamente um impasse narrativo, quando Ed e Lorraine Warren se envolvem no caso dos Hodgson os dois tomam o protagonismo da história para si (como o esperado), no entanto até aquele momento tudo o que se passava naquela casa era visto pelo ponto de vista narrativo da filha mais nova da família e, quando de repente a câmera de Wan deixa de estar do lado da garota para acompanhar a investigação do famoso casal, é como se o filme tivesse recuando de dar um maior envolvimento dramático ao drama da garota assombrada. Parece assim haver uma indecisão por parte dos próprios realizadores do que é realmente importante naquela obra. Invocação do Mal 2 pretende que o espectador se identifique com todos, mas nessa incerteza prejudica o desenvolvimento de seus personagens e da própria trama.

É nesse segundo momento também que o diretor James Wan entrega-se a todos os exageros cinematográficos, se naquela primeira parte os movimentos do cineasta eram precisos nesse momento que deveria ser mais tenso parecem um grande malabarismo, Wan parece querer realizar todo tipo de planos impossíveis, com câmeras que começam no teto, dão cambalhotas e acabam atravessando uma janela, isso tudo sem enriquecer a própria linguagem ou com algum efeito narrativo. Invocação do Mal 2 parece esquecer o quão assustador pode ser a imaginação de seu espectador, excluindo o poder da sugestão e apostando em inúmeros monstros gerados por computador que nas primeiras e breves aparições possam causar sustos, mas quando mostrados a exaustão, como é neste caso, acama gerando um incrível desinteresse, uma sensação de que aquilo não passa de um gráfico computadorizado. Dessa forma, o espectador acaba enxergando demais e imaginando de menos, em todo filme de terror os medos da audiência são bem vindos para que cada um crie suas próprias assombrações.

Invocação do Mal 2 acaba entregando um final que se alterna entre o sentimentalismo e o sensacionalismo, os últimos minutos do longa são dedicados a comprovar que toda aquela história de fato ocorreu, numa tentativa quase desesperadora de causar um pós-horror em seu espectador, um choque que não está na construção visual ou narrativa do filme, mas sim num suborno racional da obra, como se avisasse que aquilo deve causar medo até para os que não sentiram tal sentimento durante os 130 minutos de projeção. E também se esforça para mostrar como é feliz a vida daquele casal que viveu anos lutando contra demônios e agora podem viver seu próprio paraíso, num plano final que comprova que James Wan deve ficar longe de qualquer tom dramático em seus filmes.

E se Invocação do Mal 2 comete seus deslizes isso causa um sentimento que o filme poderia ser muito melhor, que poderia ser um grande terror contemporâneo, mas acaba sendo um filme extremamente competente, e isso nos padrões atuais da maioria dos blockbusters vistos já é um grande elogio. Invocação do Mal 2 assusta, mas perde a chance de ser um clássico do gênero.

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