“A era das boas adaptações de games finalmente chegou” é o que afirmava o diretor Duncan Jones em todas as entrevistas anteriores ao lançamento de Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos.

Em meio a promessas de trazer uma boa adaptação que agrade os fãs do game e ao público que desconhece o universo, Jones assumiu uma responsabilidade imensa e instigou no público expectativas imensas. E talvez este seja o grande erro de Duncan nessa jornada: vender um filme extremamente ambicioso, mas que acaba repetindo os erros de adaptações anteriores – mais uma vez, o roteiro é a perdição.

Wacraft começa apresentando o mundo dos Orcs e o mal que está tomando conta do planeta, conhecido como Vileza. Depois de muito usada, a Vileza traz consequências terríveis para o mundo dos Orcs, forçando-os a procurar uma nova moradia. Os Orcs, em busca de um mundo novo para se estabelecerem, encontram o dos humanos, conhecido como Azeroth. Sendo essa a única esperança para a sobrevivência da raça, o líder deles, Gul’Dan (vivido por Daniel Wu), abre um portal que os leva diretamente ao mundo dos humanos. É a partir daí que se inicia a trama principal que culmina com o encontro dos dois mundos.


Logo na primeira cena, antes dos créditos iniciais, Duncan Jones mostra a que veio. Com a apresentação do mundo dos Orcs, o diretor consegue aproveitar da melhor maneira possível o dinheiro investido pela Universal Pictures e Blizzard no filme, apresentando um mundo vasto e extremamente bonito e apresentando também a raça Orc, tudo a partir de CGI. O pensamento inicial pode ser de que nada é real no filme, mas é justamente o contrário: Jones consegue trazer uma expressão emotiva na raça das criaturas, o que causa certa afeição. O mais incrível é que Jones consegue manter tal qualidade durante todo o filme. Além de Avatar, é difícil pensar em um filme que tenha alcançado tamanho potencial gráfico como esse.

Outro ponto forte do filme fica por conta do tom escolhido. Diferente das “fantasias medievais” que as pessoas estão acostumadas a ver – que puxam mais para um lado obscuro e um pouco mais soturno – Warcraft, mesmo que tenha seus momentos dramáticos, foge totalmente do padrão, apresentando um filme extremamente divertido e colorido. Ambicioso por parte de Jones – mais uma vez – por ir contra a maré e apostar em um filme muito diferente visualmente. A começar nos Orcs: muito mais “inocentes” e emotivos do que em filmes como Senhor dos Anéis, por exemplo, até os humanos com suas armaduras espalhafatosas e imensas – realmente lembrando o jogo.

Se Warcraft aposta em um filme mais otimista e colorido, o seu roteiro foge totalmente disso apresentando uma história mal escrita e totalmente confusa. O roteiro escrito por Duncan Jones, Charles Leavitt e Chris Metzen insiste em apresentar diversos personagens, sem nunca escolher seu protagonista. Por mais que a profusão de tais seja algo interessante na história, a insistência em nunca escolher um como o “herói da história” faz com que a afeição com os personagens seja quase impossível.

Basicamente, o filme começa e termina e você não sabe o nome de ninguém e também percebe que não liga para nenhum personagem do filme. Desde os “protagonistas” humanos, mal apresentados e mal contextualizados, até os três Orcs principais, também mal apresentados – com exceção de Durotan – e mal contextualizados, é impossível se importar com qualquer um deles.

Ainda no quesito roteiro, o outro problema claro é a falta de explicações. Duncan persiste em trazer diversos fan services – meramente gratuitos – aos fãs do game e tenta criar uma história épica (dividida em três partes já que Duncan já anunciou que planeja uma trilogia), esquecendo-se do mais importante: contar uma história boa e despretensiosa. Em sua grandiloquência e megalomania, Jones tenta criar um universo imenso, cheio de possibilidades, mas esquece de fazer o simples e focar no desenvolvimento dos personagens do filme. Além disso, falta contextualização. Isso é evidente desde o início quando o filme apresenta o mundo dos humanos sem explicar as relações de cada personagem e o objetivo de cada um. Em síntese: para os que não conhecem o game, o filme pode ser uma confusão total.

Warcraft tinha tudo para ser o filme que iniciaria a era das boas adaptações de games. O diretor veio da comunidade de jogadores, a produtora apoiou o projeto e investiu muito nele, porém, falta uma qualidade essencial para Jones: a de um bom contador de histórias. O filme se perde em sua grandiloquência e na expectativa que carregou por meses.

Mesmo que tenha bons elementos e traga um pouco de diversão, a confusão sentida ao ver o filme estraga boa parte da experiência. Para os fãs talvez seja o que eles sonharam por muito tempo, mas para as pessoas que não conhecem esse universo? O melhor mesmo é manter-se longe da confusão que Warcraft é. Parece que, infelizmente, a era dos games no cinema não chegou ainda.

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos