Crítica | Dois Caras Legais

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A dupla de investigadores bem diferentes, um explosivo o outro mais racional; um desaparecimento mirabolante que se revela um grande caso de conspiração; mafiosos e corruptos; tudo isso acontecendo em pleno Los Angeles dos anos 70 com seu luxo e muito neon. Todos esses elementos já são bem conhecidos do público, imagens já fixadas nas mentes de cinéfilos e até mesmo de espectadores esporádicos, mas acredite se quiser, alguns filmes ainda conseguem trabalhar muito bem com clichês já muito conhecidos. E Dois Caras Legais é um bom exemplo disso.

O filme dirigido por Shane Black, conhecido pelo seu trabalho como roteirista na franquia Máquina Mortífera, acompanha a investigação do detetive particular trambiqueiro Holland March (Ryan Gosling), e de seu improvável parceiro Jackson Healy (Russell Crowe), um homem que é pago para ameaçar terceiros. Os dois entram no complexo caso de sumiço de Amelia Kuttner, uma ativista ligada à indústria pornográfica que vinha crescendo naquele período dentro dos EUA, mas o desaparecimento revela-se muito mais complexo do que eles próprios imaginavam. A trama não se restringe a ser só um thriller, mas sim utiliza essa série de clichês para realizar um filme irônico que mescla a comédia com a ação policial, algo que está longe de ser novo, mas funciona bem em Dois Caras Legais.

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Acima de tudo, o longa é uma homenagem a esse período que foi um dos mais férteis para o thriller policial. Shane Black constrói todo o filme baseado nessas referências que permeiam o imaginário cinéfilo. Dois Caras Legais tem uma concepção visual que dialoga e muito com o neon noir desenvolvido nos anos 70/80 por cineastas como o excepcional Michael Mann – é difícil não se lembrar de Profissão: Ladrão (1981), por exemplo, assistindo ao filme, as sempre acesas luzes da cidade do oeste americana na noite californiana, mesclam as cores dos luminosos neons com as sombras típicas dos filmes noir, demonstrando um apuro visual interessante e um ótimo revival desses grandes filmes hollywoodianos.

E as referências não param por aí, Dois Caras Legais conta com a participação especial de Kim Basinger e em sua primeira participação, a eterna musa surge abrindo as janelas de um carro todo preto chamando o personagem de Russel Crowe, numa clara alusão a L.A. – Cidade Proibida, que por sua vez era uma homenagem aos clássicos noir, que concedeu a Basinger um Oscar e deu fama a Crowe. Nesse espiral de referências, Dois Caras Legais consegue não ser apenas uma boa homenagem, mas funciona tanto como comédia quanto como ação.

O longa adota o tom de comédia absurda, inserindo os dois protagonistas num espiral de acontecimentos quase inexplicáveis, num decorrer de fatos que se dão mais por coincidência do que por atos dos dois protagonistas, algo que funciona e muito nesse gênero. Escrachado, Dois Caras legais lembra também o melhor do cinema dos irmãos Coen e até o recente Vício Inerente, a homenagem de Paul Thomas Anderson ao mesmo período deste filme. No entanto, Dois Caras Legais parece muito vez ter certo receio com o absurdo de sua narrativa, por muitas vezes o filme quer explicar certos fatos que funcionariam ainda melhor se apenas assumisse a aleatoriedade do ocorrido, estratégia que traria ainda mais humor ao filme.

Os dois caras do título funcionam muito bem nas telas, além do ótimo entrosamento entre Gosling e Crowe, o contraponto entre os dois é extremamente interessante. O primeiro é a comédia em pessoa e o segundo a ação. Ryan Gosling entrega em Dois Caras Legais uma atuação calcada no humor físico, tornando-o quase um inspetor Clouseau setentista; o detetive Holland March em toda sua construção no pastelão deixa a narrativa mais leve, nas suas deduções que se dão muito mais por acaso, ou que surgem em resposta de uma desconfiança, do que por habilidade, no melhor estilo televisivo. O investigador ainda conta com a ajuda de sua filha adolescente nesse caso extremamente maluco, Dois Caras Legais é uma das melhores oportunidades para Gosling demonstrar seu timing cômico e o ator se sai muito bem.

Por outro lado, Russell Crowe como o durão Healy é o contraponto para Dois Caras Legais dar o tom mais sério ao longa. O filme se aproveita do humor negro da trama para exagerar na ação, mesclando sequências que até abusam da violência sem parecer escatológico ou desnecessário. Além disso, Dois Caras Legais consegue funcionar como filme de ação, com suas bem feitas cenas de perseguição, tiroteios e interrogatórios. O filme parece acima de tudo ter respeito aos filmes que homenageia, não se limitando a ser uma sátira, mas também um filme que chega perto de ser um ótimo policial.

É bem verdade que Dois Caras Legais tem suas irregularidades, principalmente quando tenta dar ao filme um tom mais dramático, ou até mesmo passar uma moral da história, algo que destoa do restante do longa. Isso se dá principalmente na relação entre March e sua filha, que funciona dentro da trama detetivesca, mas ao tentar dar uma carga dramática maior dá a essa relação um tom bastante superficial, algo que prejudica o ritmo do filme. Mesmo a garota sendo um personagem bastante interessante, apostar nesse melodrama familiar afasta Dois Caras Legais de seus objetivos, parecendo uma mera tentativa de dar uma camada mais profunda ao personagem de Gosling, que desde o início demonstra uma gama de camadas complexas, dispensando este tipo de estratégia.

Mesmo Dois Caras Legais não chegando à perfeição, está longe de deixar a desejar. O filme de Shane Black consegue ser uma irônica e interessante homenagem aos grandes filmes policiais dos anos 70, regado ao som da funk music e conseguindi brincar e respeitar todo um imaginário cinéfilo, realizando uma grande comédia e, por que não, um bom policial.

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