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Crítica | Entre Idas e Vindas

Publicado por Redação

21/07/2016 17:20

Filmes sobre viagens – os famosos road movies – contam histórias nas quais as personagens principais conhecem pessoas, lugares e, principalmente, a si mesmas – como ocorre na vida real. O longa brasileiro Entre Idas e Vindas deixa muito claro como uma viagem pode transformar a vidas daqueles que fazem parte dela.

Um professor, Afonso (Fábio Assunção), está levando o seu filho, Benedito (João Assunção, em seu primeiro trabalho), para São Paulo para rever a mãe, em seu velho carro, uma Lada. Quatro amigas e colegas de trabalho em um atendimento de telemarketing de uma empresa, Amanda (Ingrid Guimarães), Sandra (Alice Braga), Cillie (Carol Abras) e Krisse (Rosanne Mulholland), como uma despedida de solteira para Sandra, conseguem emprestado um motorhome do tio de Amanda e viajarão ao litoral paulista.

O velho e russo Lada aguenta pouco tempo de viagem e pifa no meio da estrada, deixando Afonso e Benedito no meio do caminho. Porém, pouco tempo depois, surge o motorhome das meninas e elas acabam dando carona a eles. Porém, este simples gesto de boa ação acabará transformando a vida de cada um deles ao criar laços afetivos e muito mais.

Entre Idas e Vindas é a última produção do diretor José Eduardo Belmonte, o mesmo de Alemão (2014) e Billi Pig (2012), conhecido pelos filmes cujas histórias são, geralmente, mais pesadas e viscerais. Belmonte apresenta, agora, uma produção com um tom mais leve, porém com a mesma sensibilidade apresentada em seus filmes anteriores.

O roteiro foi escrito pelo próprio José Eduardo em conjunto com a roteirista de outro filme dirigido por ele, O Gorila (2012), Cláudia Jouvin. A inspiração do filme veio de uma ideia dada pelo filho de Belmonte, ainda quando ele filmava o longa A Concepção (2005), que quase se tornou o título desta mais recente produção dele, A Magia do Mundo Quebrado. Percebe-se realmente que esta ideia original de um mundo quebrado perpassa a história de vida de cada uma das personagens apresentadas.

A reunião de todas aquelas personagens e os encontros que acabam surgindo entre eles ao longo da jornada pela qual passam juntos foi muito bem montada por Cláudia e Belmonte. Os desejos e as frustrações vão surgindo e os altos e baixos de qualquer relação humana surgem, revelando situações passadas que acabam alterando o rumo construído em conjunto pelas personagens. Os altos e baixos surgem no longa por meio de momentos mais cômicos e mais tensos. Mas há cenas nas quais drama e humor são combinados pelos roteiristas de forma harmônica.

A fotografia foi inteligentemente feita por André Lavenere, que já tinha trabalhado com Belmonte em Billi Pig e Se Nada Mais de Certo (2008). Neste mais recente trabalho, Lavenere mistura imagens que teriam sido filmadas com uma pequena câmera fotográfica pela personagem Benedito, usando-as para os momentos de transição do longa. O que acaba revelando a visão da jovem personagem e dando uma leveza poética à produção.

Esta leveza poética também se faz presente em Entre Idas e Vindas na trilha sonora composta pelo músico e produtor carioca, Plínio Profeta. Profeta compôs trilhas para os longas Feliz Natal (2008) e O Palhaço (2011), ambos dirigidos por Selton Mello. Neste, Profeta criou músicas que se harmonizam perfeitamente com a história. Com o tom certeiro para os momentos dramáticos e para os momentos mais descontraídos.
O filme foi montado por Bruno Laseviscius, editor também de Billi Pig e O Gorila, além de Tim Maia (2014), de Mauro Lima, em conjunto com o próprio Belmonte. Eles deram uma agilidade ao filme que, inclusive, em alguns momento é um pouco exagerada. Algumas cenas poderiam ser mais longas para que os espectadores pudessem assimilar melhor o golpe dado. Mas no geral a produção tem um bom ritmo.

Sensibilidade e carinho são as palavras-chave deste mais recente longa de José Eduardo Belmonte. Entre Idas e Vindas é uma tentativa – muito bem sucedida – de Belmonte de fazer algo diferente do que ele tem feito. Está de parabéns. Ele não só conseguiu fazer, como conseguiu com que este seu projeto mostrasse uma nova faceta dele que caminha para ser um dos mais versáteis diretores brasileiros.

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