Crítica | Julieta

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François Truffaut certa vez disse que queria que seus filmes dessem a impressão que teriam sido rodados com 40 graus de febre, tal afirmação poderia muito bem ter sido feita pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

Os filmes do diretor parecem que suam de tanta emoção que transpiram de tão intenso que são. Almodóvar ainda é um dos poucos cineastas que ainda conseguem deixar os sentimentos ultrapassarem a barreia da tela de cinema e chegar a seu público como uma febre, e com certeza Julieta entrega toda essa sensação. E se Julieta não é o melhor da incrível carreira do espanhol, o filme chega a um momento propício em que Almodóvar encontra-se entre altos (A Pele Que Hábito, 2011) e baixos (Amantes Passageiros, 2013, nesse caso muito baixo) e esse novo filme pode representar um novo começo para o já renomado cineasta. Almodóvar voltando ao universo feminino consegue de maneira hábil colocar o espectador no centro das emoções e lembranças da protagonista título.

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O longa acompanha uma mulher de meia idade prestes a recomeçar sua vida com um novo namorado em Portugal, até que encontra com uma antiga amiga de sua filha, que coloca a protagonista num espiral de lembrança. O espectador, logo após esse encontro casual, é transportado para esse turbilhão de emoções e memórias marcado por flashbacks, e Julieta é exatamente sobre essa presença do passado que faz seus personagens reféns do tempo e da vida. Essa obsessão é notada como os flashbacks vão se tornando cada vez mais constantes até dominarem completamente a linha narrativa do longa. O passado toma conta de Julieta e do longa também. Nessa mesma chave é interessante como a memória é retratada, não esteticamente, mas o roteiro é construído como se seguisse o fluxo da memória, na qual um fato faz menção a outro e mais um, assim sucessivamente, sendo inútil tentar encontrar num filme como esse primeiro, segundo ou terceiro ato.

Almodóvar conduz sua trama como se fosse um mistério, um suspense com tons de thriller, mas em Julieta não há assassinatos, desaparecimentos ou algo do gênero, a solução do caso levará o filme ao descobrir-se, o mistério está na própria condição humana de Julieta. E é interessante notar como o filme oferece todas as peças do quebra cabeça de Julieta, num sentido clássico de pista e recompensa, como no momento em que a Julieta jovem explica para uma turma de literatura clássica os diferentes sentidos da palavra ‘mar’ em grego e que uma delas poderia significar o profundo, o desconhecido, mas que poderia trazer também a promessa de uma eternidade. Quando moça vai visitar seu amante, Xoan, numa cidadezinha costeira, ela entra numa cozinha que os azulejos remetem ao fundo do mar, representando claramente que o mergulho naquela relação será exatamente o caminho desconhecido para a jovem, mas que traria sua gratificação eterna, ou pesar eterno.

Em outro momento, Julieta pergunta-se por que não consegue se livrar dos braços daquele homem, parecendo estar sendo abraçada por pedras e ao encontrar-se com uma artista local, a garota pega uma escultura feita pela moça e sente o peso, que segundo a artista é as rochas daquele lugar, o povo daquela cidade, a pequena estátua de um homem com seu sexo a mostra, com o peso de bronze, mas aparência de argila é tudo que Xoan tornar-se-á para Julieta, o homem forte que pode agarrá-la, na onipresença de seu apetite sexual, na sua intensidade, que atribui a ele um peso difícil de esquecer.

E se todas essas relações parecem exageradas é porque Pedro Almodóvar adota essa super dramaturgia, na qual a força motriz de seu cinema está justamente no texto, nas falas, na relação dos personagens. Almodóvar assume seu tom em exagero e isso enriquece a trama de Julieta, fato que em mãos menos habilidosas seria uma grande catástrofe. Isto ocorre porque o cineasta sabe utilizar todos os recursos cinematográficos, Almodóvar não tem medo de criar uma paleta de cores toda trabalhada nas sensações de seus personagens, em figuras já vistas no cinema como a cruel governanta Marian, ou até mesmo a trilha musical, que flerta com o suspense, tocada sempre no talo, nunca de maneira sutil, assim como Brian De Palma ou Hitchcock. Almodóvar deixa seus códigos cinematográficos evidentes, fazendo o cinema ser presente em Julieta. Almodóvar com o domínio desses artifícios faz com que sua obra não seja excessiva, mas sim febril.

Febril como as ardentes cenas de sexo presente em Julieta. E caro leitor, não pense que tal descrição seja uma futilidade nessa crítica, uma vez que Almodóvar é um dos poucos autores que melhor conseguem registrar o sexo nas telas, colocando na medida certa o erotismo e a sutileza, nada é explicíto ou romantizado, é desejo de verdade. E é só com uma dessas cenas que se compreende a necessidade da relação entre os protagonistas do filme, um sexo que não está ali para atrair ou seduzir, mas para evidenciar aquela ardência, para iluminar aqueles corpos que necessitam se encontrar, só assim compartilha-se daquele ardor.

Após mais de 30 anos de carreira, Pedro Almodóvar prova com Julieta que ainda é capaz de fazer um cinema tão intenso, tão denso, tão forte, que faz a tela suar com seu calor. Julieta e todas as suas paixões é um filme que faz com que o espectador queira sentir mais dessa febre sofrida por Almodóvar e por seus personagens.

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