O Porta dos Fundos é um dos maiores fenômenos digitais dos últimos tempos. O grupo composto por talentosos comediantes tira da cartola vídeos semanais com um humor diferenciado, muito acima da média das comédias populares que colecionam recordes de público no país. É inegável a qualidade da produção deles nesses últimos anos.

Era também muito aguardada a transição do trabalho dos garotos da plataforma online para a tela grande. Conseguiria o grupo sustentar piadas em um longa metragem de 1h50 de duração? A essência dos esquetes do You Tube seria mantida? A resposta para estas perguntas é frustrante. Não, eles não conseguiram manter o mesmo pique na linguagem cinematográfica.

Contrato Vitalício é uma tentativa falha de levar até os últimos limites uma piada sem graça, non sense e muitas vezes constrangedora. À princípio, a trama começa bem ao abordar a vitória do filme de Miguel (Gregório Duvivier) no festival de Cannes, Oxigênio, estrelado por Rodrigo (Fábio Porchat). Ambos partem para a comemoração do prêmio em uma festa de gala e, misteriosamente, Miguel some do mapa após vomitar no banheiro do quarto do hotel.


O roteiro pula 10 anos depois. A partir daí, descobrimos que Miguel foi abduzido por seres alienígenas através de um portal que o levou para o centro da Terra. Imbuído de tentar filmar suas experiências ao longo dessa última década, Miguel resgata um contrato vitalício que Rodrigo assinou, quando estava bêbado, se comprometendo a estrelar qualquer produção do diretor sob pena de multa. Rodrigo, a contragosto, acaba sendo forçado a ser o protagonista da trama cheia de diálogos sofríveis que conta até com uma homenagem ao clássico trash de Carla Perez, “Cinderela Baiana”.

Além da história rocambolesca, os personagens muitas vezes apelam para cenas escatológicas para provar a falta de criatividade do roteiro. Como se não bastasse a falta de inspiração do roteiro de Porchat e Gabriel Esteves, somos “brindados” com piadas sobre chuva de fezes para reproduzir a lama do centro da terra, piadas recorrentes com uma obra de arte de formato fálico na residência de Rodrigo e um “relaxamento anal”.

Contando com diversos personagens em cena, Contrato Vitalício ainda peca ao rebaixar comediantes talentosos como João Vicente de Castro a um papel infeliz de um mendigo desequilibrado que mal abre a boca e Antonio Tabet a um matador de aluguel que não funciona nunca em cena. Sem contar as “participações especiais” de praxe de celebridades que entram e saem do filme como Anitta, Xuxa, Naldo…Tudo demasiado…

Fábio Porchat acaba trazendo seus trejeitos de sempre e seu timing cômico que em muitas vezes funciona, mas infelizmente seu roteiro constantemente o sabota (autoflagelação?). Duvivier não acrescenta muito com seu diretor excêntrico e a caricatura de musa fitness criada por Thati Lopes muitas vezes acerta nos absurdos, mas acaba perdendo a graça mais adiante.

Há muitas referências que podem passar batidas para o público, como a caracterização de Júlia Rabello inspirada na famosa preparadora de elenco Fátima Toledo. Se, no inicio, parece genial mostrar o método rigoroso que ela submete os atores a passarem, a piada desanda quando ela força um dos personagens a se portar no estúdio como um cachorro. Not funny…

Em linhas gerais, o primeiro filme do Porta dos Fundos merecia um conteúdo mais cuidadoso, mais inteligente. A marca do Porta tornou-se referência de piadas non sense a partir de situações triviais que passamos no cotidiano, meio que uma versão mais esculhambada de “seinfeld”, guardadas as devidas proporções. Aqui eles se rendem a mais do mesmo, ao cinema nacional que estamos cansados de ver com merchandising (OI?), participações especiais e piadas com membros do corpo.

O diretor Ian SBF até imprime uma linguagem moderna à produção, transições de cenas inspiradas e ágeis, mas nada se sustenta quando uma comédia que propõe fazer o público rir falha justamente neste elemento. No cinema, faltou o mouse para pausar o vídeo e sair pela Porta dos Fundos cabisbaixo e constrangido.

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