Na década de 90 o mundo viu uma sangrenta guerra eclodir em pleno continente europeu, o desmembramento da antiga Iugoslávia fez com que a região passasse por diversos e terríveis conflitos internos, os processos de independências de Croácia, Eslovênia e principalmente Bósnia se deram de maneira bem complexa com um imenso derramamento de sangue, as minorias mulçumanas presente nessa região sofreram uma enorme repressão por parte da maioria serva, que pretendia unificar toda região dos Bálcãs. É exatamente neste contexto que começa o filme espanhol Um Dia Perfeito.

O longa se passa no fim da Guerra da Bósnia em 1995, e acompanha um grupo de ajuda humanitária que auxilia na resolução de pequenos problemas locais. O filme concentra-se como diz o título, em um dia que o grupo precisa remover um cadáver de um único poço de água numa pequena comunidade. Mabrú (Benício Del Toro), B (Tim Robbins) e a novata Sophie (Mélanie Thierry) terão que desafiar os interesses de uma série de pessoas e compreender o trauma daquela região para cumprir sua missão.

Assim, Um Dia Perfeito coloca o conflito, e principalmente suas consequências, pelo olhar desse grupo de assistência humanitária com sua intrínseca neutralidade e abstinência perante aquela guerra, o que não significa uma frieza diante dos envolvidos. E o filme é exatamente sobre esse reconhecimento do trauma e como uma guerra civil torna-se um conflito mundial, ainda no início um representante da ONU diz que não porque eles não falam a língua local que o conflito passa a ser global e Um Dia Perfeito ao longo de seus 106 minutos prova que qualquer guerra afeta o ser humano, logo deveria ser de interesse de todo o mundo.


O roteirista e diretor Fernando León de Aranoa é inteligente para não cair algumas armadilhas comuns nos filmes do gênero. Um Dia Perfeito não é apelativo, não necessitando utilizar um tom melodramático para convencer seu espectador da importância de seu registro, tratando a guerra sem uma dramatização exagerada, não caindo no óbvio de utilizar o conflito e o drama para gerar choros óbvios.

Além disso, Aranoa é perspicaz o suficiente para não utilizar o acontecimento verídico como centro de seu filme, a Guerra dos Balcãs permeia toda a narrativa, no entanto o cerne de Um Dia Perfeito está nos acontecimentos daquele pequeno período, no conflito dos personagens, a guerra está sendo discutida nessas duas instâncias, assumindo a universalização daqueles acontecimentos, não sendo necessariamente um filme sobre a guerra dos Bálcãs, mas sim sobre qualquer guerra. Chegando assim a uma estratégia cinematográfica muito mais interessante, não ficando preso somente aos fatos.

Um Dia Perfeito também adota um humor quase irônico, brincando com as próprias situações vividas por aquele grupo, um filme que consegue tratar com naturalidade os temas da guerra, no entanto, o longa não adota certo sarcasmo, fato que até poderia ser soar desrespeitoso sendo um olhar estrangeiro, diferentemente de Underground – Mentiras de Guerra, por exemplo, a obra-prima do humor negro dirigida pelo sérvio Emir Kusturica, que faz um retrato irônico sobre este mesmo conflito. O humor em Um Dia Perfeito opera de maneira diferente, a fim de deixar o longa mais palatável, mais agradável de assistir. O filme demonstra, dessa forma, um desejo em ser popular, seja por seu tom mais leve, seja por sua trilha roqueira quase onipresente, sem ser alienado.

Mas talvez seja exatamente por adotar este clima mais despojado, que Um Dia Perfeito levanta uma barreira clara com o envolvimento em relação aos dramas locais, como se entendesse, compreendesse e se solidarizasse com os traumas, mas com um enorme receio de se aprofundar naquele drama, de mergulhar de fato na guerra. Um Dia Perfeito apesar de levar bem o tema da guerra apazigua principalmente as suas consequências, amedontra-se diante do fato de parecer pesado ou denso demais, e isso não quer dizer clamar por um sensacionalismo ou estratégias mais melodramáticas, mas constatar que falta certo envolvimento. Seria quase uma materialização do próprio trabalho humanitária que ajuda, mas mantém certo distanciamento local, algo que o filme não deveria tomar para si.

As irregularidades de Um Dia Perfeito são compensadas por um roteiro bem escrito e principalmente bem amarrado, os caminhos que os protagonistas percorrem para cumprir sua missão são dados por pequenos elementos, pequenas pistas que depois se mostram como a resolução de um problema dos personagens, por exemplo, uma senhora que caminha com as vacas nas colinas dos Bálcãs, um simples registro local que toma importância para a trama tempo depois. Interessante também a figura do garotinho bósnio Nikola, que é para Um Dia Perfeito a visão local sobre o ocorrido, ele é também o ponto mais dramático da trama, apresentando justamente essa contradição entre o envolvimento e a ajuda humanitária, relação que podia ser ainda melhor trabalhada, mas gera os momentos mais emocionantes do longa sem ser piegas ou exagerado. Tudo isso é conduzido de maneira simples e segura por Aranoa, gerando um longa extremamente competente.

Um Dia Perfeito é um filme que por muitas vezes foge do óbvio dos filmes de guerra, sendo perspicaz e irônico à sua maneira, deixando isso claro no seu bem trabalhado final, não ficando preso a dar respostas históricas a respeito daquele conflito que até hoje tem suas feridas abertas, vide a questão não resolvida em Kosovo. Um Dia Perfeito aborda essa violento conflito sem cair em armadilhas, sendo um trabalho acima da média.

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