Crítica | A Intrometida

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À distância, a comédia dramática parece ser o gênero mais seguro nos cinemas. Amenizando as consequências dramáticas de uma história, mas também dando profundidade à comédia. No entanto, o que poderia ser uma estratégia que agradam gregos e troianos pode acabar em uma grande armadilha resultando em filmes que não entregam nem o envolvimento dramático necessário, muito menos momentos cômicos que cumprem com o traço humorístico que a obra deveria conter.

E é nessa lógica que A Intrometida se insere. Estrelado por Susan Sarandon e Rose Byrne, o filme conta a história de Marnie, uma mulher já madura que deve se acostumar com uma nova vida após a morte do marido, assim ela se muda para Los Angeles para ficar mais próxima da filha, mas não percebe que na verdade está sufocando sua cria. A mulher decide então ajudar todos a sua volta com o dinheiro que tem a fim de livrar-se dos seus dramas.

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Assim, é curioso como A Intrometida é um filme com medo de se aprofundar no interior de suas personagens, parecendo mostrar sempre a faceta mais superficial de suas figuras. Marnie nunca tem seu psicológico abalado exposto, muito menos destrinchado no filme, suas ações sempre movidas por impulso são sempre tratadas com uma leveza cega, que não leva em consideração a natureza daquelas ações. O mesmo acontece com o papel de Lory (Byrne), a filha de Marnie, que parece apenas uma garota mimada quando reage ao comportamento de sua mãe, quando poderia também render uma ótima reflexão sobre psicológico abalado de duas personagens causado por um mesmo trauma, A Intrometida, então, parece distanciar-se dessa conotação com um receio de ficar denso demais, fugindo da seriedade do tema.

Com isso, o longa de Lorena Scafaria parece ser um punhado de boas intenções, uma quantidade enorme de temas introduzidos, mas que nunca são realmente desenvolvidos. A Intrometida tenta falar sobre solidão, paixão na melhor idade, caridade como forma de alívio da dor, mas na verdade nada disso é realmente tratado. Pelo contrário, o filme vai saltando de um assunto para o outro, sem o desenvolvimento necessário, sendo apenas ideias jogadas na tele, sempre com um receio de se aprofundar em alguma questão. E talvez ocorra, pois Scafaria, diretora e roteirista, subestima de maneira impensável seu espectador, acreditando que ao quer ser incomodado por nenhum de seus assuntos e adotando um didatismo que chega a ser inacreditável, em alguns momentos do longa aparece em cena a personagem da psicóloga que nada mais é que apenas uma figura para verbalizar todo o pequeno subtexto do filme, explicitando ideias que há muito já estariam clara na cabeça do espectador mais desligado.

Isso tudo gera um filme cheio de buracos, cheio de ideias que não se completam apesar do roteiro querer mostrar que todos os conflitos apresentados são resolvidos. Porém, são justamente as mazelas internas da personagem que não se completam, num arco dramático que não se desenvolve. Em certo ponto da projeção, num diálogo mais que dispensável com a psicóloga Marnie é alertada que seus gestos de bondade podem significar só uma culpa, só uma ocupação para não se lembrar de sua tragédia, porém, após esse momento, o longa não leva a crítica adiante, parece que nenhuma transformação ocorre com a personagem, e isso ocorre ao longo dos 100 minutos de filme.

Além disso, Scafaria adota um estilo de direção que se assemelha ao dos filmes indie americanos, algo que era independente e hoje só revela-se como uma estratégia de alcançar um público cativo desse tipo de filme. Dessa maneira, o despojamento estético adotado não acrescenta em nada na narrativa de A Intrometida, sendo frágil também nas suas concepções cinematográficas, que adota o mesmo didatismo de seu texto. O que torna A Intrometida um filme bem problemático.

Assim, o longa acrescenta muito pouco em tudo o que tenta fazer, não conseguindo criar uma investigação de personagens interessante, desprezando toda carga emocional e psicológica da história, também divertindo muito pouco em suas tentativas de ser cômico e com pouquíssimo domínio dos meios cinematográficos. Com isso, A Intrometida torna-se desinteressante, sendo um filme que nunca se decide, que nunca se envolve.

Por fim, A Intrometida tenta apostar em todos os pontos certos para fazer um filme leve e agradável, mas é justamente seu medo em arriscar, o receio em se aprofundar naquele universo, que sempre parece superficial, o longa fica em cima do muro, não alcançando nem o drama que desejava, muito menos o divertimento, sendo apenas uma tentativa de comédia dramática.

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