Crítica | Desculpe o Transtorno

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Quer queira, quer não, o canal Porta dos Fundos veio para mudar o humor brasileiro. Dali despontaram nomes para humor e outras áreas que hoje fazem muito sucesso, como o caso de Gregório Duvivier, Clarice Falcão, Fábio Porchat, entre outros. Evidentemente que o cinema usaria esses atores que atraem tantos jovens toda semana em seus vídeos, principalmente tratando-se do gênero mais efetivo, em termos de público, do cinema brasileiro.

Assim, a grande questão que fica ao ver Desculpe o Transtorno é por que essa turma não consegue trazer seu frescor para o cinema. Sim, nenhum dos membros do Portas está na direção, roteiro, mas o trabalho do ator por si só já é uma criação, dessa maneira, é difícil compreender como Clarice Falcão que em seu trabalho como cantora dialoga muito mais com uma cena independente do que o mainstrean, ou Duvivier que em sua coluna num famoso jornal sempre mostra-se com uma posição distante do senso comum ou do próprio veículo em questão, quando estão no cinema apenas repetem clichês e trejeitos da comédia popular brasileira.

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Assim, Desculpe o Transtorno parece sofrer dessa compulsão por soar popular, ou acessível o tempo todo, embora pareça em alguns momentos ter ideias que fujam do que se vê. O longa dirigido por Tomas Portella conta a história de Eduardo, um homem que sofre de dupla personalidade, a primeira tipicamente paulistana e a segunda carioca, seguindo todos os estereótipos pensáveis, nessa vida dupla o protagonista dividir-se-á entre duas mulheres, a patricinha de São Paulo (Dani Calabresa) e a deboísta do Rio (Clarice Falcão). O que é engraçado reparar é que Desculpe o Transtorno sofre desse mesmo mal.

Em certos momentos, de forma bem apressada é verdade, o filme explora a vida de Eduardo num comodismo melancólico, a repetição de seu cotidiano é uma triste, porém confortável realidade do protagonista, mesmo a segunda personalidade dele é uma constatada fuga de sua vida e seus exageros possuem seus dramas. Assim, Desculpe o Transtorno parece traçar seu rumo através da comédia dramática, o que seria uma espécie de comentário irônico da vida daqueles personagens. Há um momento em que Eduardo abraça uma pessoa fantasiada de coelho rosa no meio de um aeroporto, tal situação poderia muito bem ter sido retirada de um filme do Spike Jonze, demonstrando certo tato nesse quesito. No entanto, na busca por se inserir no mesmo patamar das comédias de sucesso, o filme simplesmente desiste de tais pretensões e foca num humor frágil e batido.

Muito disso se deve a uma construção de personagens bem deficiente. Desculpe o Transtorno aposta em tipos e estereótipos, sendo figuras totalmente planas, sem camadas humanas algumas. Mesmo se pensar no protagonista Eduardo e suas múltiplas personalidades não há uma construção complexa em relação a essas duas personas, mas sim o que se pensa a respeito dos cariocas e dos paulistas. Não cabe aqui nem entrar na briga que o filme parece propor, há uma tentativa de extrair humor da rivalidade entre as duas regiões, mas que os pontos são tão óbvios que na verdade leva a pouquíssimos risos.

Assim, em todas suas limitações, o filme restringe o trabalho cômico de seus atores. Engessando-os em um tipo de comédia extremamente diferente daquela que os fizeram conhecidos. Duvivier tenta ir para um humor físico que parece não possuir, enquanto seu potencial para tiradas carregadas de ironia surgem uma vez ou outra. O mesmo ocorre com Dani Calabresa, que no seu papel superficial faz graça com seu tipo escrachado, mas ao longo da trama apenas demonstra-se cansativo, uma vez que sua personagem não muda ao longo do filme. O que se vê em Desculpe o Transtorno são comediantes talentosos engessados numa fórmula esgotada do cinema de comédia nacional.

O que há no longa não é uma reformulação, ou atualização do gênero, mas sim uma mudança no star system nesse cinema comercial, troca-se os atores, saem os globais marcados pelo Zorra Total, entram os famosos da internet. Nessa espécie de neo-chanchada, há um tímido enfoque numa outra classe social, se antes havia o máximo do popular em cena, agora há um foco num público mais jovem, pertencente a classe média, que se vê engravatado nos escritórios ou num sonho juvenil muito mais redentor, em que se pode aplaudir o sol. No entanto, Desculpe o Transtorno tem gana de abranger a tudo e a todos, há claro no Rio de Janeiro uma tentativa de mostrar um subúrbio brasileiro mais feliz com sua condição de vida, ideias que permeiam a comédia nacional desde a década de 1950, e regado a um humor bastante previsível. A constatação é que de fato Desculpe o Transtorno traz muito pouco frescor.

Assim, o filme apenas cheira novidade, nos seus enquadramentos provenientes da publicidade, vez ou outra o filme coloca seus atores em situações despojadas no quesito da linguagem, que logo remetem a internet. Uma dessas situações é um encontro entre pessoas com dupla personalidade, e o momento parece de fato uma esquete do Portas dos Fundos, e de fato ali contém algumas piadas interessantes, no entanto, aquilo parece não se conectar com o estilo da cena anterior e da seguinte. Quando há uma novidade em Desculpe o Transtorno parece não colocar com o já batido humor contido no filme.

Existe, assim, apenas uma troca de fotogenia nessa comédia, uma renovação de elenco, mas não de pensamento cômico, não de humor ou de possibilidades narrativas para esse gênero tão presente na cultura cinematográfica do país. Se o Porta dos Fundos conquistou inúmeros inscritos por um humor diferenciado e isso acabou refletindo na televisão, por exemplo, chegou a hora de contagiar também o cinema, para que a comédia não seja apenas uma repetição de clichês e piadas já ouvidas.

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