Crítica | Herança de Sangue

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Herança de Sangue de longe pode ser visto como mais um clichê de filme de ação e pela sinopse pode parecer que será mais um Busca Implacável, agora com o Mel Gibson na pancadaria total. No entanto, Herança de Sangue é um filme que merece outro olhar, um filme que funciona como um resgate da tradição de todo imaginário do gênero no cinema americano e, consequentemente, traz detalhes extremamente interessantes no modo de contar uma história já conhecida.

Sim, Herança de Sangue traz em sua premissa algo bastante comum, a situação do pai que busca proteger a filha envolvida e perseguida por diversos bandidos e malfeitores. Ao contrário do sucesso protagonizado por Liam Nesson, aqui a menina em perigo não é a jovem inocente na mão pessoas má intencionada que libera o sentimento heroico em seu pai, em Herança de Sangue o que move os personagens é uma falta de moral profunda. A herança do título é a margem da sociedade e o espírito fora da lei. A garota se envolveu com as pessoas erradas e agora foge de sua punição, seu pai conhece esse mundo e sabe as regras dele, cabe ao patriarca ensinar a sua filha como se joga esse jogo.

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Esse universo amoral releva que este filme é um herdeiro direto de uma tradição do cinema de ação dos anos de 1970, e retrabalha as situações presentes ali. Com exagero da comparação, Herança de Sangue traz muito de um cinema realizado por Sam Peckinpah, e retrabalha os códigos de todo um gênero no longa e com isso realiza algo muito diferente do que se faz no cinema de ação atualmente. Herança de Sangue centra suas cenas num submundo americano, aquele deserto é à beira da civilização, ali estão figuras que trabalham por baixo do aceitável e que não necessitam de transparecer qualquer ética ou moral. Herança de Sangue está na terra sem leis e encontra o que há mais repugnante na sociedade daquele país, a ruína encontrada ali reforça um pensamento que por incrível que parece permear uma ainda vigente compreensão política por parte dos americanos.

Assim, é totalmente verossímil que em sua jornada pai e filha encontrem, por exemplo, um personagem chamado Pastor, um ex-combatente do Vietnã, que agora financia grupos neo-nazistas, gangues de motoqueiros e planeja construir um muro de que separa Estados Unidos e México com uma antiga pista de pouso. Mel Gibson, o pai, é um herói em meio a esse mundo, e sua filha por incrível que pareça a filha dele é que desafia todos os homens mais perigosos desse mundo sem lei, somente a violência que demonstra uma sobrevivência possível. No entanto, Herança de Sangue utiliza todos esses elementos para satirizar tal pensamento, há uma ironia presente em toda obra que ajuda a resignificar a violência e os mitos do gênero.

Logo, é interessante ver como o filme utiliza toda uma matéria extra-filme para alcançar tom desejado, como o próprio papel de Mel Gibson, numa autointerpretação. Quer queira, quer não o ator carrega consigo uma figura controversa, dessa forma, é muito interessante quando Herança de Sangue coloca uma fala extremamente preconceituosa a respeito da imigração na boca de Gibson, para logo em seguida ser desconstruída por outro personagem. É, nessa fórmula até bastante escrachada, que o filme coloca em cheque certos pensamentos que costumam envolver os filmes de ação, por exemplo, o aspecto conservador do gênero, sempre questionado em Herança de Sangue; o território da masculinidade, rompido pela figura da filha que desafia todas as gangues do meio oeste; e até mesmo a figura inquestionável do herói, que aqui não é nenhum santo e tem muitas contas a acertar.

Dessa maneira, Herança de Sangue assume uma condição pitoresca, como se fosse construído numa certa ilustração de um imaginário que contempla anos e anos de cinema de ação. O longa dirigido pelo francês Jean-François Richet não está preocupado em criar situações verossímeis, mas sim que encontrem sua força no estilo, ou melhor, numa busca por situações extremamente cinematográficas, que trabalhem constantemente os símbolos de um cinema de gênero. Se não há um ritmo frenético do início ao fim, fator que parece praxe nesse gênero atualmente, Herança de Sangue consegue criar um clímax totalmente interessante, e acontece justamente por essa cautela do filme para se entregar a ação.

O protagonista do longa é uma bomba relógio, que evita desde o começo a violência como saída, o filme a todo momento vai colocando a prova esse personagem e somente no final que a bomba explode, e essa força vêm através de um confronto com todo aquele espaço que ele se insere, como no confronto com o Pastor já citado no texto, e somente com isso enfrenta os homens que colocam sua filha em perigo. A ação chega somente ao final e com ela é concluído todos os elementos levantado pelo filme, a explosão final vem para confrontar aquele deserto marginalizado que o protagonista e sua herdeira são obrigados viverem.

Dessa forma, o longa é herdeiro direto de uma geração de cineastas e filmes que pensavam o cinema de ação como algo além da simples violência. Herança de Sangue atua nessa mesma chave e é um filme disposto a pensar os códigos do gênero para criticar, satirizar e resignificar, sem deixar de ser um filme de ação. O longa é com certeza um dos mais interessantes do gênero esse ano.

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