Crítica | O Homem nas Trevas

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O cinema de gênero desde seu nascimento é uma cria da indústria, um filme construído para atrair um público específico e assim gerar uma boa bilheteria. Por exemplo, o terror e seu eterno vínculo com a parcela adolescente que vai aos cinemas. Ser autor num cinema desses é uma tentativa de traficar ideias temáticas e estéticas num produto que visa apenas um deleite temporário regado a um grande balde de pipoca. Assim, alguns nomes utilizam os códigos e clichês do gênero que atuam para colocar em prática um cinema autoral, que se pensa estar apenas no cinema de arte, num filme voltado para as massas. Aqui, as ideias traficadas atingem uma enormidade de público, fazendo com que este tipo de filme seja um sucesso em duas frentes, são esses exemplos que fogem do senso comum e são muito mais do que um simples filme de ação, suspense ou terror.

O Homem nas Trevas é com certeza um desses casos e chega para provar o bom momento do cinema de horror no momento. O longa dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez (A Morte do Demônio, 2013) é um exemplo de como não se tornar genérico, de continuar utilizando os códigos do gênero e, assim, traficar ideias num filme que tem muito potencial para tornar-se popular. O Homem nas Trevas segue o estilo da premissa simples, um grupo de adolescentes que vive de assaltar algumas casas e decidem dar seu golpe num senhor veterano de guerra, que ficara cego em combate, o que os protagonistas não sabem é que o velho apresenta muito mais perigos que eles imaginam e precisaram enxergar como ele para poder escapar.

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O típico longa que poderia ser apenas mais um exercício de gênero, que de fato é com extrema habilidade, mas não se contenta em ser só isso. O Homem nas Trevas poderia, também, focar apenas nesse argumento claustrofóbico, a casa daquele homem cego poderia ser qualquer casa, numa espécie de horror da vida privada. No entanto, Alvarez situa sua história em Detroit, cidade americana que após anos de um crescimento econômico intenso e que com a globalização e descentralização industrial viu-se em crise. Hoje, Detroit é uma cidade de ruínas, colapsada por uma destruição física e moral do sonho americano, nas suas diárias demolições a cidade transforma-se numa extensão de escombros.

E é justamente dessas ruínas que surgem os personagens de O Homem nas Trevas, não há raízes morais nas figuras que habitam o universo do filme, a ambiguidade é a regra tantos dos vilões quanto dos heróis, que legitimam seus atos falhos apenas por suas motivações ou pelo seu sadismo. Dessa forma, O Homem das Trevas subverte qualquer tipo de pensamento moralista possível, não há o que julgar naquilo que é visto, naquela cidade, naqueles escombros só pode haver sobrevivência.

Quando o filme entra na casa do Homem Cego, mais uma das ruínas de Detroit, o longa torna-se uma jornada ao medo e à violência, aquela habitação funciona quase como um trem fantasma e a câmera de Alvarez funciona como um maquinista dessa jornada. Logo de início, o diretor concebe um plano-sequência que revela quase todos cômodos e objetos da casa que servirão para a narrativa, antes dos próprios personagens o espectador visita aquele mundo, sabendo o que pode vir a ser usado em prol do horror que o filme seguirá. Dessa forma, O Homem nas Trevas consegue construir um ambiente de tensão desde o início, através das informações fornecidas, Alvarez entende que o espectador é um privilegiado e, assim, manipula seus sentimentos e sensações com conhecimento da trama fornecido de maneira proposital. Dessa forma, os espectadores, junto com aqueles personagens partilham dessa jornada ao medo e à violência.

E é interessante notar quando a única saída daqueles jovens é o porão daquele homem, assim, a ida à parte mais profunda daquela casa é também um mergulho a mente enlouquecida daquele personagem, é cavar o lado mais violento e sombrio do cego. Aquela violência cega, que busca por reparação de todos os traumas antigos daquele ser sombrio, gera mais horror e a única saída possível é a resposta da mesma maneira. Não há redenção possível, não há paz imaginável naquele cenário, não há, nem mesmo, uma luz que habite aquele espaço.

É nesse momento que o filme apresenta suas ideias mais pesadas, beirando a violência extrema da mesma forma que repudia a escatologia, ali Alvarez dialoga até mesmo com o trash e se sai muito bem. O Homem nas Trevas não é um filme que faz concessões, que não busca agradar seu espectador através do susto fácil e, assim, segue fiel a suas ideias do início ao fim da trama, sendo um longa que subverte as expectativas.

O Homem nas Trevas ainda tem margem para se fazer pensar, o horror jamais é tratado como escapismo nesse longa e talvez o momento mais assustador do filme é a última sequência, que não revelarei evidentemente. Mas é justamente como uma realidade vigente trataria através da mídia e afins, o terror é real e nas ruínas dessa civilização colapsada não há margem para a redenção, nem para o heroísmo.

Ainda é cedo para tratar o cineasta uruguaio como um autor dentro dos filmes de terror, mas O Homem nas Trevas revela grandes ideias, temáticas e estéticas, mostrando que seu diretor não se contenta em apenas seguir regras de um determinado gênero, há muito que ver em O Homem nas Trevas.

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