Crítica | O Homem que Viu o Infinito

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A biografia deve ser um dos gêneros mais difíceis do cinema. A linha é extremamente tênue entre uma hagiografia e um retrato mais cru dos acontecimentos da vida do retratado. O Homem que Viu o Infinito insere-se bem nessa questão, uma vez que traz a luz uma história que possui grande importância, mas ainda é pouco conhecimento, a vida de um brilhante matemático indiano.

Ambientado no início do século XX às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o longa concentra-se na trajetória de Ramanujam (Dev Patel), um jovem morador de uma cidade pobre da Índia que possui um talento nato para a matemática. O garoto é incentivado a publicar suas teses na Inglaterra e contata o professor G. H. Hardy (Jeremy Irons) que leva Ramanujam à universidade, tornando-se mais do que um mentor, mas um amigo para o garoto.

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Na época, o Reino Unido colonizava a Índia e apenas a presença de um indiano nas salas de aula britânicas já é paradigmática, com isso a figura de alguém como Ramanujam é ainda mais resistente. Um garoto de um país pobre e, segundo ingleses, menos desenvolvido, que de uma hora para outra coloca em cheque inúmeros conceitos acadêmicos. Por si só a figura de Ramanujam é contestadora, e digna de interesse. Assim, o filme até pincela questões raciais e da complexa relação colonialista entre britânicos e hindu, representados nas figuras da elite acadêmica e de Ramanujam, mas prefere centrar-se em sua dimensão mais básica e na sua história de superação.

Dessa forma, o filme concentra todas energias em mostrar todos obstáculos que Ramanujam tem que enfrentar para publicar e ser reconhecido como merece. Desde as rígidas normas da academia até a saudade de sua família, é aí que surge a figura de G. H. Hardy que começa a ganhar força ao longo da projeção. É interessante notar como o longa cresce a partir daí, mas também revela a importância de seus personagens. Hardy é muito mais que um facilitador para Ramanujam, é na verdade essencial para o sucesso daquele, em troca Hardy tem conquistas internas, pessoais, mais do que materiais.

Nesse diálogo entre os personagens é interessante notar como Hardy concede a Ramanujam seu reconhecimento no mundo matemático, e em troca resolve seus problemas de ordem espiritual. A questão é que a relação entre ambos é um tanto quanto complexa, é difícil criar empatia com aquela dupla, o caráter quase ditatorial de Hardy em relação a seu aprendiz é seguido com pouquíssima ou quase nenhuma demonstração de afeto. Por muitas vezes parece que a figura daquele professor é justamente igual a de seus colegas de profissão, provar que aquele jovem não é apto a assumir o posto que tanto almeja.

Sendo assim, parece que Hardy nutre uma admiração apenas pelo brilhantismo de Ramanujam, mas longe de interessar-se pela perspectiva humana daquele rapaz. Dessa forma, o filme quase derrapa ao mostrar esse envolvimento de forma apressada, Hardy quase de uma hora para outra percebe e apaixona-se pela persona de Ramanujam. Sorte de O Homem Que Viu O Infinito que seu elenco é encabeçado por atores de níveis invejáveis, Jeremy Irons, principalmente, sustenta seu personagem de maneira hábil, mesclando uma frieza cética que vai se tornando aos poucos um amor racional, quase provado de maneira empírica, com isso, torna-se crível aquele envolvimento, Irons consegue empregar em sua face uma preocupação com aquele rapaz, coisa que o roteiro do longa até então não conferia.

O elenco de O Homem que Viu o Infinito é um dos aspectos que torna o filme funcional e no mínimo correto. Assim, em todas as instâncias técnicas, o longa desenvolve sua narrativa de forma objetiva, não chegando a excelência, mas não deixando a desejar. Matt Brown dirige com cuidado e rigor, num estilo mais artesanal possível, tendo como objetivo apenas transmitir de maneira objetiva todos os aspectos da biografia de Ramanujam. Sendo apenas o segundo longa em 16 anos, o diretor assume certo didatismo cinematográfico e demonstra de forma alguma sair de sua zona de confronto, o que não prejudica o filme, mas impossibilita O Homem Que Viu o Infinito a alcançar lugares mais pretensiosos.

O mesmo ocorre com todo aspecto visual da obra. Com certo academicismo, O Homem que Viu o Infinito é pintado com luzes e cores neoclássicas, tentando a todo o momento conferir um tom heroico ao longa. Estratégia, que mais uma vez funciona, mas não faz com que o filme saia de um lugar comum. O filme de Matt Brown é acima de tudo um longa extremamente informativo, que tenta cumprir essa função com a maior segurança possível.

Com isso, O Homem que Viu O Infinito mostra sua importância para dar luz a essa história quase desconhecida. Numa tentativa de reparar essa questão o longa percorre os caminhos mais fáceis para informar, nesse tom quase educativo, o filme tem bons e maus momentos, mas pelo menos seu resultado é longe de ser desastroso. O Homem que Viu o Infinito é um filme simples e correto para um personagem que merecia da mesma forma que buscou o brilhantismo.

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