Crítica | O Silêncio do Céu

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O Silêncio do Céu, logo de cara, começa com uma cena de estupro da personagem principal, o que poderia parecer abjeto e sensacionalista surge como uma representação dos traumas. O que se vê na tela são fragmentos daquela violência, a arma, o braço, uma parte do rosto do agressor, como um verdadeiro fluxo de pensamento que ficará na cabeça do espectador ao longo de todo o filme e por muito mais tempo.

Após o ocorrido, o cotidiano de Diana (Carolina Dieckmann) parece seguir normalmente, ela recebe os filhos para o jantar, a cena é cortada e o assédio volta à tela, agora do ponto de vista do marido, Mário (Leonardo Sbaraglia), que entra na casa, vê a violência e é incapaz de agir, mais uma vez o estupro não é objeto de uma tortura assistida, mas algo tão violento, que o homem só é capaz de ver pelas frestas de sua casa. O ato nunca está totalmente no quadro, e ao ver os homens fugindo de maneira impune, Mário os persegue, numa corrida sem êxito atrás dos violentadores. O protagonista volta para casa e mais uma vez é visto aquela refeição, que agora toma outro significado e paira sobre aquela família um silêncio mortal.

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É dessa incomunicabilidade que O Silêncio do Céu tira todo seu suspense e tensão, a incapacidade de sequer tocar no assunto afoga aqueles personagens em seus piores pensamentos, seja o medo, seja a violência. Muitas vezes os protagonistas parecem encontrar-se num profundo transe, como se estivessem desconectados de tudo que os cerca e isso é reforçado pelo desenho sonoro do longa, que com uma ruidagem extrema isola aquelas pessoas de qualquer sentimento que não seja provindo do trauma. O Silêncio do Céu é um tour fource, que consegue provocar um mergulho na mente atormentada daquele casal.

Com isso, após a fatídica cena inicial, O Silêncio do Céu não precisa ser explícito, o horror e o suspense acontecem no cotidiano, o medo se traduz naquele silêncio que permanece nos cômodos daquilo que já não se pode chamar de lar. Naquela casa há toda uma construção de um thriller psicológico que remete, e muito, a Roman Polanski e sua trilogia do apartamento, em que todo lugar daquela habitação parece, de certa forma, encurralar os protagonistas. Os enquadramentos fazem com que portas, janelas e paredes comprimam os personagens, deixando-os ainda mais acuados em seus sentimentos.

Quando cai a noite, o habitat do casal é invadido por uma luz noturna de coloração azul esverdeada, na hora que o silêncio é quase institucional e o pesadelo pode vir à tona, aquela cor intensa imerge ainda mais Diana e Mário em seu psicológico abalado. Aqui, o diretor Marco Dutra encontra uma elaboração estética que traduz os tormentos somatizados pelo casal. Com isso, O Silêncio do Céu em sua concepção visual traz muito daquilo que foi popularizado no cinema de horror italiano, ecoa Mario Bava e Dario Argento nas noites daquela casa.

E o longa não se limita em ser apenas um suspense psicológico, há uma preocupação constante com a essência daqueles personagens. Ao longo da projeção Diana vai se calando cada vez mais em seus medos, seu trauma toma conta de seu ser, o que é quase palpável na atuação extremamente contida de Carolina Dieckman. Por outro lado, seu marido Mário vai sendo absorvido por uma raiva brutal, à medida que o tempo passa o marido não tem como recusar a violência, numa premissa digna de Sam Peckinpah. É brilhante como a vingança é retratada exatamente como se fosse um tratamento psicológico, enquanto planeja a caça aos agressores, Mário diz estar encontrando-se com um psicólogo para tratar seu medo de avião, colocando, assim, um emaranhado de informações que vão além d simples suspense.

Se Polanski, Bava, Argento e Peckinpah parecem presentes em todo filme, engana-se quem acha que Marco Dutra faz de sua mise-en-scène uma simples mistura de referências. O cineasta consegue organizar todo um repertório de maneira bastante orgânica, construindo uma direção precisa para aquele filme. Fazendo não apenas um estudo de atmosfera que culmina em um final explosivo, mas também elaborando ideias puramente visuais para narrar essa história. Por exemplo, um simples diálogo entre Diana e Mário no banheiro, em apenas um plano, Dutra e o fotógrafo Pedro Luque enquadram ambos os personagens através de um espelho, reunindo diversos reflexos de uma vez só, numa conversa entre as imagens que cada personagem quer passar para o outro, nesse plano não é Diana conversando com seu marido, mas sim um representado para o outro. O jogo de espelhos aqui revela muito mais do que está sendo dito.

Dutra demonstra-se um diretor do signo, característica que pode ser notada em seus outros curtas e longas, numa habilidade ímpar em lidar com os símbolos dentro da trama. Aqui não falando apenas de objetos cênicos, como os constantes cactos que trazem um formato fálico, que remete àquele trauma inicial. Mas também como trabalha o significado e significante em todo em O Silêncio do Céu, por exemplo, a figura de Néstor que surge como uma rocha, arrastando suas pernas, sem dizer nada há uma certeza que aquele de fato é o grande agressor. E isso porque o filme sabe trabalhar uma figura já enraizada no imaginário do público, que reconhece naquele personagem um típico vilão de filme de terror, ainda que isso não soe óbvio ou fácil, apenas a utilização de um símbol já conhecido, que não precisa ser explicado.

O que dá ao filme uma interessante dinâmica, em que os múltiplos signos dão a O Silêncio do Céu uma série de camadas simbólicas, que passa por uma decifração quase inconsciente por parte do espectador, dando um acesso ainda maior ao universo interno daqueles personagens. E nada mais justo que encerrar pelo final de O Silêncio do Céu, (sem nenhuma revelação da trama é claro), em que finalmente a violência toma conta daquele homem que foi incapaz de agir, a luz noturna que antes afogava os personagens num azul esverdeado transforma-se num turbulento vermelho, ali na síntese dessa jornada entre o medo e a raiva a resolução apresenta-se como no momento inicial. Mais uma vez, Marido e mulher são unidos por estarem presente no trauma, agora um tomando o lugar do outro. No entanto, a incapacidade de expurgar os demônios um frente ao outro prossegue, e aquele espiral de sensações revela que aquele silêncio ensurdecedor seguirá na vida dos dois.

O Silêncio do Céu é uma das obras mais poderosas do ano. Intenso, impactante e cruelmente conciso, o longa de Marco Dutra consegue provocar as mais profundas sensações, causando no espectador um silêncio que durará muito mais que os 112 minutos do filme.

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