Crítica | Últimos Dias no Deserto

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“Então o Espírito conduziu Jesus no deserto para ser tentado pelo Diabo”. É assim que se inicia o quarto capítulo do livro de Mateus no novo testamento. O embate no deserto entre Jesus e o Diabo dura onze versículos, mas em Últimos Dias no Deserto essa é a premissa que guia o filme durante os 98 minutos. A ideia do homem santo isolado nesse inóspito confrontando seus próprios medos e colocando em voga todas suas dúvidas é o centro desse filme.

Com isso, o filme escrito e dirigido pelo colombiano Rodrigo García começa com Jesus já em seu percurso no deserto, o espectador encontra o protagonista no meio da jornada, o que dá a sensação que aquilo pode ser o décimo dia ou o trigésimo. Além disso, a desértica locação confere uma falta de referência cronológica, não tem como saber quanto tempo se passou do início ao fim da história, concebendo assim um entendimento assustador do que são aqueles 40 dias e 40 noites, a quaresma não se trata de um período exato de um mês e 10 dias, mas sim, uma longa jornada, que poder ser física, mas primordialmente psicológica.

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Assim, Últimos Dias no Deserto é um convite a um passeio pela mente desse Jesus, que nessa jornada de autoconhecimento é muito mais homem do que santo. Longe de discípulos e apóstolos, Cristo pode ser humano, pode estar em dúvida com sua fé, pode ter medo e se sentir finito. Dessa maneira, a escolha em ter um mesmo ator para Jesus e o Diabo é tão interessante, o filme joga com a ideia de que as duas figuras são duplos do mesmo homem, na iminência do Cristo tornar-se imortal e tirar o pecado do mundo, ele deve confrontar-se, ele deve ser provado por si mesmo, ele deve ser tentado.

Em um momento de Últimos Dias no Deserto, Jesus pergunta ao diabo como é estar na presença de Deus, revelando que o longa busca muito mais do que uma simples ditocomia entre essas figuras, mas sim uma complexidade na relação da representação do bem e do mal, as duas coisas tangenciam-se, há uma dualidade nos dois personagens, nem tudo é sombra nem tudo é luz, não é Cristo que explica o que é Deus, mas sim o diabo. O Jesus de Últimos Dias no Deserto parece investigar aquele outro que o provoca, mas que também tem muito a ensinar, o encontro com o mal aqui é mais do que apenas uma provação, mas sim uma investigação do lado mais íntimo do Cordeiro de Deus.

E claro que naquele deserto haverá suas tentações, Jesus em seu percurso encontra uma família, faminta de humanidade, a doença da mãe afeta todas as relações, não há unidade naquelas pessoas também desérticas, Jesus é uma chegada não celebrada, mas respeitada, na sua condição de santo parece ser seu dever salvar aqueles personagens. Tal passagem não se encontra na Bíblia e bem que pode ser lida como mais uma das provocações diabólicas, mas a questão é que não se trata apenas de uma armadilha, mas continua na linha da autocompreensão de Jesus, ali há um ensinamento e é isso que toma o filme.

Últimos Dias no Deserto faz uma interessante reflexão sobre a finitude e até mesmo a incapacidade de Jesus diante dos conflitos, característica humana ao homem Santo. Como se o longa descrevesse naquele microcosmo visto no deserto que Cristo mesmo depois de crucificado, mesmo na sua condição de Deus não poderá solucionar todos os conflitos, ainda haverá a crise, ainda faltará humanidade. Nas suas doses existencialistas, Últimos Dias no Deserto revela-se uma profunda tentativa de profunda reflexão a respeito da fé, da compreensão de Deus, através dessa investigação profunda em torno da figura de Cristo.

O longa tenta passar suas ambições de maneira bastante visual, num estilo claramente inspirado num cinema de Terrence Malick, é interessante perceber a escolha de Emmanuel Lubezki como diretor de fotografia. O habitual parceiro do diretor de Árvore da Vida parece dar a esse projeto uma cara mais autoral, uma vez que Rodrigo García é na maioria de seus projetos um trabalhador da indústria, dirigindo episódio de séries e filmes bem diversificados. A ambição de Últimos Dias no Deserto encontra-se justamente no trabalho de câmera de Lubezki, sempre em movimento, de uma forma mais delicada que em Malick mas que leva as mesmas conclusões, como se o olhar do filme fosse na verdade uma visão divina, sempre presente em cena. Essa onipresença é marcada também pelos raios solares que sempre inundam o quadro. Segundo o próprio filme, Deus tem uma presença que parece sempre envolver, e a fotografia de Os Últimos Dias no Deserto tenta causar isso através dessa luz constante em cena, principalmente nos momentos mais dramáticos.

Fica evidente também certa falta de tato do próprio Garcia em relação a seu projeto. Muitas vezes o cineasta parece querer uma dramatização excessiva em momentos que pedem uma contemplação uma calmaria dramatúrgica, assim como muitas vezes García busca um estilo com uma edição muito trabalhada, até mesmo rebuscada, em momentos que Últimos Dias no Deserto clama por uma maior contemplação daqueles momentos no árido local. Dessa forma, Rodrigo Garcia parece trair as ambições de seu longa, mas se essas irregularidades revelam os pecados do longa, na sua proposta e estética demonstram que o diretor pode ter um novo, e muito mais interessante, caminho para trilhar.

Assim, Rodrigo Garcia consegue realizar um filme que merece atenção. Na sua adaptação de onze versículos bíblicos, o cineasta consegue fazer um longa que vai muito além da reconstituição factual ou algo assim, Garcia propõe e realiza um filme extremamente reflexivo.

Por fim, Últimos Dias no Deserto não é um filme sobre religião, mas profundamente humano, fazendo com que a Quaresma seja muito mais uma reflexão sobre as características humanas do que a de um Santo.

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