40ª Mostra de SP | Crítica: A Menina sem Mãos

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A representação do conto de fadas no cinema é extremamente presente. Hoje essa ideia remete aos clássicos da Disney e seu anestesiado “viveram felizes para sempre”. A Menina sem Mãos toma caminhos completamente opostos para rever o imaginário do conto de fadas e consequente repensar o papel da animação nessa função.

A Menina Sem Mãos é baseado numa trama dos irmãos Grimms, a grande matriz dos contos de fadas. Nessa busca quase historiográfica pela origem dessas representações, o filme mantém toda visceralidade da história dos Grimms. Como se não tivesse receio em aceitar os caminhos violentos que aquele conto poderia assumir. Dessa forma, o mundo mágico de A Menina sem Mãos é muito mais crível pela violência presente, como se a fantasia fosse a única saída para aquela dura realidade.

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Outro ponto que revela esse caráter embrionário do conto de fadas reside no fato do filme não seguir uma estrutura narrativa tão formulaica. Como se fosse uma história pautada na tradição oral, o longa vai tomando caminhos que não necessariamente seguem uma lógica cíclica, como se seus atos estivessem em rumos distintos, conectados por um pequeno fio condutor mas que não faz questão de encaixá-los. Assim, o filme que começa com um homem fazendo um pacto com o demônio oferecendo sua filha em troca de riqueza, transforma-se na história dessa menina tão pura que o diabo não consegue possuí-la, seguindo para um romântico encontro entre Príncipe encantado e protagonista, finalizando num momento de encontro e desencontros. Um filme onde cada ponta não é uma deixa a ser amarrada, mas oferece um novo percurso para a história.

Algo que também salta os olhos é a simplicidade da trama. Como se o conto narrado não tivesse tempo para questionamento dos espectadores. Os personagens reagem de acordo com uma falta de complexidade narrativa, como se aquelas figuras não tivessem o direito de questionar os anseios de um narrador/autor. Ou seja, as regras da ficção são infalíveis, sejam elas verossímeis ou não, um pai com certeza decepará as mãos de sua filha por um pacto, sem questioná-lo, e assim por diante, algo extremamente característico a forma desse tipo de narrativa. Fato que dá força à moral da história que os contos de fada querem passar.

Assim, essa maneira de narrar este conto é refletido por completo no modo em que a animação é composta. A Menina Sem Mãos foge de qualquer padrão, utilizando desenhos com traços finos e nada rebuscados, em que as figuras muitas vezes parecem estar incompletas, destoando das animações que entram no circuito comercial. O longa possui um estilo que parece uma simples gravura referente à história, como se o que é visto na tela fosse apenas uma ilustração da história contada.

A Menina sem Mãos é um filme de historia. É lógico que isso confere uma subserviência da imagem em relação ao texto. No entanto essa condição parece ser o grande objetivo do filme. Como se estivesse a todo o momento tentando buscar o cerne, a essência, daquele conto de fadas. E isto reside justamente no poder do conto e da palavra.

Dessa forma, a grande potência desse filme é trazer um encanto em relação ao poder da narrativa que conta. A Menina sem Mãos constrói um mundo onde as cores e traços estão em função de seu conto de fadas.

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