40ª Mostra de SP | Crítica: Aloys

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O curioso filme franco-suíço Aloys carrega consigo um interessante e bastante comum a respeito da sociedade contemporânea. O filme de estreia de Tobias Nölle é uma reflexão acerca da solidão e da melancolia, fazendo um retrato fantasioso e surrealista para explicar um sentimento tão comum no dia a dia.

O filme narra a história de um detetive particular, Aloys Adorn, que, após a morte de seu pai, percebe sua solidão perante o mundo. O protagonista se afunda na própria profissão e apenas vigia, filma e observa seus investigados, já seu hobby consiste em assistir as gravações que faz durante o dia. Um homem que basicamente só olha a vida pelo lado de fora. De repente, Aloys começa a receber mensagens e ligações de uma mulher misteriosa, e logo o homem fica fascinado por aquela voz.

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Nessa premissa que logo remete a Ela, de Spike Jonze, o filme formula temas parecidos com o longa vencedor do Oscar. No entanto, se naquele título o filme tratava a solidão através da tecnologia, aqui a solução está no plano da imaginação. A voz que fala com Aloys logo propõe um jogo, o chamado “telefone andante”, em que ambas as pessoas imaginam-se em diversas situações, conectando-os sem um estar na presença do outro.

É interessante como o longa aborda a relação entre os dois. É evidente que logo de imediato é construído um jogo em que o investigador torna-se o investigado, sendo observado constantemente. Ainda que haja um fascínio em relação àquela mulher, Aloys sente que há um intruso em sua vida, assim como ele é um invasor no dia a dia alheiro. No entanto, o longa não se limita em apenas transformar esse jogo na força motriz de seu filme, mas essa primeira abordagem funciona como o gatilho de relações mais profundas.

Dessa forma, a película consegue, após essa primeira abordagem, colocar seu personagem num mundo completamente imaginário, onde finalmente consegue satisfazer seus desejos mais básicos, nem que seja a simples socialização. E Aloys consegue ser bastante interessante, uma vez que consegue desconstruir essa lógica de imediato, problematizando o fato de seu protagonista apenas refutar a realidade para viver num mundo onírico. Chega um momento em que o protagonista não precisa nem mais do telefone para fazer suas andanças imaginárias. Aloys demonstra, dessa forma, uma lucidez ao retratar seus temas, sem cair em soluções fáceis e inocentes para um problema bastante presente no mundo contemporâneo.

Outro fato que demonstra essa maturidade é o plano da imaginação, construído não como uma realidade totalmente diferente a dele, mas sim apresentando novas dinâmicas para a vida daquele solitário sujeito. Ou seja, a imaginação dentro do jogo do telefone andante fabula uma nova realidade para a vida de Aloys Adorn, na qual materialize-se na sua imaginação fatos que ele não consegue realizar em sua vida, como uma simples conversar com seus vizinhos, .

Dessa forma, aquele imaginário nada mais é do que um alívio para sua vida. Nota-se como Nölles compõe os planos na vida concreta de Adorn, em que nas cenas externas o mundo apequena e oprime aquele homem e nos ambientes internos Aloys sempre se encontra enclausurado e esmagado. Aquele homem nunca está confortável no mundo que habita. Ao contrário do plano onírico, onde os espaços parecem aconchegantes e receptivos, em que a pálida e sóbria paleta de cores é trocada por uma intensa gama de colorações.

Essa relação fica bastante evidente quando no jogo do telefone andante, Aloys e sua companheira misteriosa dão uma festa no apartamento do protagonista, e ali aquele lugar parece gigantesco, recebendo todos daquela vizinhança. O mundo de Aloys ganha cor e música, resultando numa grande sequência que parece um divertido videoclipe de uma banda indie. O filme consegue dosar a sua melancolia com momentos bastante açucarados, transformando Aloys num reflexivo e divertido filme.

É evidente que o longa, muitas vezes, carrega certo pretenciosismo. Como se a cada sequência quisesse construir metáforas e mais metáforas para um mesmo tema. Algo que desde o início já estava dado, colocando-se numa posição de superioridade em relação ao espectador. Como se realmente estivesse fazendo paralelos geniais, quando na verdade está passando um recado já compreendido de outras e outras maneiras.

Por fim, Aloys é um filme que carrega uma importância em sua temática e grande criatividade em sua abordagem. Ainda que possua certa pretensão pedante, o longa consegue ser uma boa e inventiva fábula da atualidade.

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