40ª Mostra de SP | Crítica: Belos Sonhos

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Nossa relação com os nossos pais, geralmente, é bem conturbada. Achar o equilíbrio quando se é pai ou mãe é uma das preocupações constantes quando se está criando uma criança. Um povo e uma cultura que representam bem a complexa vivência familiar, principalmente, a existente entre um filho e sua mãe, é a italiana. É senso comum dizer que os italianos têm quase que uma dependência de suas mamas. Porém, um ângulo quase inexplorado dessa relação familiar é objeto do mais recente filme do diretor italiano – não poderia deixar de ser – Marco Bellochio, Belos Sonhos.

Exibida este ano na mostra paralela ao Festival de Cannes, Quinzena dos Realizadores, e escolhida para abrir a 40ª Mostra de SP, a história de Belos Sonhos (Fai Bei Sogni, em italiano) gira em torno das lembranças de infância e adolescência de um jornalista esportivo sobre a morte e a ausência de sua mãe. O roteiro, como na grande maioria dos filmes de Bellochio, também é escrito por ele. Neste último, colaboraram Valia Santella e Edoardo Albinati. Este trabalho a seis mãos é baseado no romance autobiográfico do jornalista Massimo Gramellini, também de mesmo título.

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O espectador é apresentado a um menino de 9 anos, Massimo, em 1969, em Turim. Ele passa as tarde depois da escola contente com sua mãe (Barbara Ronchi) em casa. Porém, ela tem alguma coisa que ele não consegue compreender. Uma noite: um violento grito do pai e vizinhos a entrar no apartamento. Ele levanta assustado e chamando por sua mãe. Ela, entretanto, não responde.

Essa súbita perda da mãe e a transformação dela em uma ausência constante, acaba sendo a base na qual a vida de Massimo (Valerio Mastandrea) é construída. A montagem de Belos Sonhos, realizada por Francesca Calvelli, que trabalha em quase todos os filmes de Bellochio, é baseada em flashbacks. O filme, inclusive, começa com um. Momentos ocorridos entre Massimo e sua mãe nos anos 60 são mostrados para justificar reações apresentados por ele quando adulto.

Situações que a personagem vivencia quando adulta, são justificadas por momentos ocorridos quando ela era criança ou pré-adolescente. Como, por exemplo, sua relação com as mulheres e mesmo a escolha de sua profissão, jornalista esportivo. Ela acaba escolhendo essa profissão porque seu pai (Guido Caprino), que para animá-lo, acaba levando o garoto para assistir a um jogo do Torino Football Club, pouco tempo depois da morte da esposa.

O ator Valerio Mastrandrea realiza perfeitamente o papel do homem afetado pela ausência da sua mãe. Valerio dá o peso certo à carga dramática dessa personagem. Massimo, quando adulto, torna-se um homem mais introspectivo, ao contrário de quando era criança em que tinha mais reações espontâneas. Todavia, essas reações espontâneas não sumiram de vez na fase adulta, quando certas situações o fazem agir sem pensar. Essa introspecção apresentada pela personagem de Valerio por ser percebida já na personagem do pai.

O ator Guido Caprino o interpreta muito bem. Ele deixa muito claro como aquele homem tem traços mais frios, um tipo que é uma exceção na cultura italiana. A personagem que movimenta toda essa história é muito bem interpretada pela atriz italiana Barbara Ronchi. Barbara soube trabalhar esta personagem complexa, cheia de medos e inseguranças. A atriz francesa Bérénice Bejo (O Artista, 2011), apesar de fazer praticamente uma ponta neste filme, entendeu a importância da sua personagem para a de Valerio e soube dar o peso certo a ela.

Alguns momentos de Belos Sonhos, porém, acabaram tendo um peso exagerado no melodrama devido à trilha sonora. O compositor dela, Carlo Crivelli, infelizmente, pesou a mão em algumas de suas composições e fez com que determinadas cenas tivessem quase que uma expectativa de terror. Apesar de parecer ser um terror para uma criança de 9 anos perder sua mãe, há cenas que não precisam ter uma trilha que exagerasse o drama delas.

A fotografia sob a responsabilidade do italiano Daniele Ciprì está belíssima. Momentos-chave do longa têm uma qualidade de imagem muito boa. Assim, como a reconstituição de época que nos transporta para a Itália dos últimos 40 anos.

Belos Sonhos foi uma ótima escolha para ser o filme de abertura do 40ª Mostra Internacional de Cinema. Um belo exemplo do que ocorreu na Mostra Quinzena dos Criadores em Cannes deste ano.

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