40ª Mostra de SP | Crítica: O Nascimento de uma Nação

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Há uma certeza ao ver O Nascimento de uma Nação: este é um dos filmes mais controversos do ano. Desde a escolha de seu título que faz alusão ao famoso e racista filme do criador do cinema americano, D. W. Griffth, até a forma visceral como retrata o levante de escravos em pleno sul escravocrata, o filme é uma explosão política, que possui sua força exatamente na urgência do tema que retrata.

O Nascimento de uma Nação não é um filme fadado a negociações, mas uma espécie de revisão blaxpotation. Um filme feito por um negro para comunicar-se com um público negro. Nate Parker, em seu primeiro longa, demonstra o desejo de participar de uma linhagem que contém Spike Lee e até Malcom X, herdeiros diretos de Nat Turner, o protagonista do filme.

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Baseado na história de Turner, um ex-escravo que pregava o evangelho para negros, após presenciar todo tipo de tortura com seus irmãos, nota na bíblia uma palavra de libertação e não de submissão. “Lembrarei que Ele também é um Deus da ira” diz Turner as vésperas de seu violento levante. Naquele momento a única saída para a libertação só poderia ser a luta armada, só poderia ser a rebelião e o filme tenta fazer com que se entenda isso. Evidentemente, que tal fato histórico foi reprimido de forma ainda mais tensa, matando inúmeros escravos e negros libertos, assim como o mordomo da casa grande que profetiza a morte de todos aqueles homens que almejam a liberdade. O filme é uma tentativa de seguir outra profecia bíblica e exaltar aqueles que um dia foram humilhados.

Dessa forma, o longa é uma maneira de colocar Nat Turner como um cânone da resistência racial nos EUA, o homem que não teve restos mortais para não incentivar outros escravos, ganha, depois de muitos anos, um monumento em forma de audiovisual. E O Nascimento de uma Nação faz isso através de sua construção totalmente épica, assim como era o filme de Griffith. Em cada opção estética e narrativa sente-se o peso de um filme que deseja ser grandioso. A representação do negro no longa de Nate Parker ocorre na chave mítica, sendo um longa que tenta revelar a grande dimensão de seu protagonista.

A grande questão é que nessa chave o filme personaliza totalmente a figura daquela rebelião. Aquilo é fruto, quase que exclusivo, da ação de Nat Turner e é como se Nate Parker quisesse estender essa condição a si próprio. O filme é sim uma espécie de manifesto político e de insubordinação em relação às tensões raciais presentes nos EUA, mas a impressão é que O Nascimento de uma Nação só ocorre através de um herói, e aqui ele seria o próprio diretor e ator principal. Se no início do longa, o protagonista é ungido como um escolhido, Parker parece entender que é o grande porta-voz de Turner anos mais tarde.

Evidentemente, isso gera uma série de exageros e maneirismos que fazem com que Parker opte sempre pelas decisões que evocam alguma grandiosidade. Fica claro que o diretor pensa estar fazendo o grande filme de sua vida, ainda que esse seja seu primeiro longa e demonstre as irregularidades de uma obra de debute. Se essa pretensão de Parker concede irregularidade ao filme, ela também demonstra como todos os seus temas são tratados com urgência, algo que vibra em importância na tela do cinema.

É com isso que O Nascimento de Uma Nação tem grandes momentos, que demonstram toda a sua força. Por exemplo, a sequência que mostra a retaliação contra negros após a rebelião de Turner, em que as imagens são contadas através da música “Strange Fruit”, na voz de Nina Simone, um triste hino sobre o racismo no sul dos EUA. É aí que Parker realiza, com certeza, uma das passagens mais fortes do cinema em 2016.

Observando a força e irregularidade de O Nascimento de uma Nação, nota-se que este não é um filme controverso gratuitamente, mas que traduz um acirrado debate contemporâneo. O longa de Nate Parker é o épico da resistência negra, uma forma de reparar danos históricos edificados no nascimento daquela nação, antes mesmo de Griffith.

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