40ª Mostra de SP | Crítica: Um Estado de Liberdade

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Parece que é um momento propício para o cinema político. A proliferação de debates e temas acerca do que ronda a sociedade faz com que a importância desse tipo de filme seja rapidamente reconhecida. Um Estado de Liberdade está inserido nessa lógica, um longa que se aproveita de um fato do passado para debater um ponto em voga atualmente, mesmo que nesse percurso demonstre de um despreparo de ordem política.

O filme conta a história de Newton Knight (Matthew McConaughey), homem que deserta do exército confederado no meio da guerra de secção e acaba formando um grupo de resistência no sul dos EUA, reunindo negros, lavradores e mulheres que se sentem oprimidas diante da aristocracia sulista. Paralelo a esse fato, o filme também mostra um julgamento na década de 1930, em que um homem branco é acusado de estar num casamento ilegal, por teoricamente ser descendente de negros.

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O homem em questão é um herdeiro direto, literalmente falando, de Newton Knight. Como alguns outros filmes da 40ª Mostra de SP, Um Estado de Liberdade tenta fazer uma reparação histórica e rememorar com os olhos críticos os atos do passado. Assim, é engraçado como o filme de Gary Ross (Jogos Vorazes) é uma espécie de lado B e menos popular do controverso O Nascimento de uma Nação (leia a crítica), de Nate Parker, representando até mesmo o que um dos filmes mais badalados do ano queria romper.

Em ambas as tramas presentes no longa, Um Estado de Liberdade retrata o racismo e a exploração escravagista através dos olhos de um branco. Seja ele o grande libertador racial, ou o próprio branco sofrendo racismo, algo verídico naquela época, mas que despreza o Mississípi em chamas que os negros viviam. Assim, se o longa de Ross rememora a figura de um homem tão pouco lembrado, que desafiou todos os padrões de uma época, ele também acaba personalizando completamente a luta daquele movimento. Algo que também ocorre no longa de Nate Parker.

Embora Newton seja de fato o grande líder daquelas revoltas, o filme despreza a luta dos outros personagens. Como se tudo se desse apenas pela presença de Newton, fato, que na pretensa condição de filme político, consiste num incontornável equívoco. E essa figura de certa forma, nas melhores das intenções, anula a potência da luta negra. Em diversos momentos, o protagonista age como porta voz de todos ao seu redor, ele fala pelos negros, pelas mulheres e até mesmo pelos mais conservadores de seu grupo, como se fosse infalível e superior na sua consciência política.

Assim, há uma espécie de romantização acerca desse herói político. Esse fascínio em torno de Newton Kinight faz com que o filme não seja capaz nem de fazer um recorte preciso do que quer retratar, o longa parece desejar falar sobre todos os eventos importantes que seu protagonista participou. Chega a um momento na narrativa de Um Estado de Liberdade, que o filme é obrigado a inserir textos documentais para explicitar detalhes daquele período histórico. E isso não é uma opção estética do filme, mas surge como um desespero para conseguir dar conta de tudo o que quer representar. Fato que impossibilita a criação de um envolvimento total em relação a seu público, ficando algumas vezes bem próximo de uma dramatização à la History Channel.

Com uma quantidade enorme de informações, Um Estado de Liberdade se arrasta ao longo de suas quase duas horas e 20 minutos. Como se o filme não conseguisse manter seu foco e consequentemente manter a atenção de seu espectador. O filme, mesmo trazendo detalhes importantes e interessantes acerca da história, se perde pelo anseio de querer abordar tudo o que pode.

Um Estado de Liberdade é um filme com todas as boas intenções, que deseja se valer pela importância dos fatos que retrata. No entanto, nessa tentativa de construir uma obra extremamente política, Um Estado de Liberdade não consegue entender seu lugar, nem a forma como retratar algo tão relevante.

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