Crítica | A Nona Vida de Louis Drax

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No cinema, o universo infantil não necessita apenas ser uma construção voltada às crianças. Alguns filmes conseguem abordar temas muito sérios, relevantes e até tensos a partir de olhos infantis, alguns pegam a inocência do olhar, outros a imaginação fértil que ajuda os pequenos a lidarem com o mundo real através de suas fantasias. A Nona Vida de Louis Drax é um típico exemplo dessas duas condições e faz um suspense bem consistente e maduro por meio do universo infantil.

O longa baseado no livro homônimo começa com um prólogo apresentando toda a vida do protagonista, narrado em off pelo garoto. O início imerge o espectador no mundo de Louis Drax e mais do que isso dá o tom que o longa seguirá, mostrando de forma divertida e inventivas as peculiaridades de Drax, um menino propício a acidentes. No mais perigoso deles, a queda de um penhasco, o personagem título vai parar num estado de coma profundo, e todos ao seu redor culpam seu pai pelo acidente.

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E se esse início pudesse parecer que haveria uma leveza narrativa isso é muito bem construído, não tendo receio de levar o filme a lugares mais pesados, mais tensos e complexos, mantendo sempre uma inocência infanti. Assim, a película pode muito bem ser dividido em três frentes, a primeira um constante flashbak que continua aquele prólogo e vai mostrando toda a relação do menino com a família; outra é o tempo presente da narrativa, as tentativas do médico para trazer o garoto à consciência e o mistério que cerca aquele acidente; unindo essas duas camadas ainda há a imaginação fantasiosa do garoto, que mesmo em coma está presente naquela ação e utiliza as suas fantasias para avaliar os fatos, além disso, essa frente promove os saltos entre passado e presente.

Assim, o longa encontra uma excelente saída para tratar aquele suspense, num intrincado jogo não linear entre o que aparenta ter acontecido e o que realmente ocorreu. Algo que torna A Nona Vida de Louis Drax bastante interessante é que o filme tem seu principal ponto de vista num garoto em coma, tentando mostrar como os lapsos de consciência do garoto se relacionam com tudo aquilo que está ocorrendo ao seu redor, e até mesmo representando como a inconsciência funciona, achando metáforas para esta situação.

Tudo o que ocorre nessa esfera interna da mente do personagem é carregada com um exímio trabalho visual, que evoca uma fantasia pungente, por exemplo, uma espécie de monstro de algas que conversa com o personagem. Nesse plano mental, a imaginação que era reprimida no dia a dia é que dita as regras, que apresenta o que está acontecendo do lado de fora. Dessa forma, o filme tenta apresentar esse estado de maneira visual e criativa.

Nessa condição, é evidente que o garoto não pode simplesmente falar como aquele acidente ocorreu, e se suas lembranças são impulsionadas por aquele amigo imaginário, o personagem tenta de todas as formas se comunicar com os demais, e encontra na mente frágil de seu médico um ótimo meio, numa espécie de conexão inconsciente entre os dois. É interessante como o filme não cai na armadilha de fazer isso seu eixo central, mas de maneira sutil e até velada constrói uma ponte entre esse mundo mental e o mundo real.

Assim, a figura do médico, Allan Pascal (Jamie Dornan), torna-se uma espécie de mediador, um receptor das mensagens daquele menino incomunicável, codificadas e sempre incompleta. Nesse suspense em que o protagonista é um garoto em coma, o doutor assume o cargo de investigador, e não há aqui uma atmosfera tensa ou sustos repentinos, o longa constrói seu suspense através da busca, através de perseguições cautelosas, que seguem passos não físicos, mas psicológicos dos envolvidos. Assim como o clássico Um Corpo que Cai de Alfred Hitchcock, A Nona Vida de Louis Drax envolve o espectador num espiral mental que envolve todas as personagens.

De certa forma é impressionante como o longa possui semelhanças com a construção fílmica do mestre do suspense, como existe a criação do melodrama (aqui como gênero mesmo e não como adjetivo) entre os envolvidos nas conspirações, principalmente médico e a mãe; a presença magnética da personagem feminina, em que sua beleza física auxilia num jogo pensado de aparências, e nisso a atuação de Sarah Gordon como a senhora Drax lembra muito o memorável papel de Kim Novak na obra-prima Hitchcokiana; e até mesmo a construção de um clímax que preza por um plot twist com uma explicação racional e psicológica, que remete a alguns desfechos do mestre.

No entanto, é necessário ressaltar que A Nona Vida de Louis Drax tem suas irregularidades, o filme sofre de certe verborragia, os personagens estão sempre falando, sempre se remetendo a uma questão anterior e ainda há uma constante narração em off, que não chega ser inconveniente ou desnecessária, mas torna o filme extremamente verbal. Como isso, o filme parece ser um constante diz que me disse, que pela interessante trama às vezes parece abafado.

Assim é fácil notar uma prolixidade em A Nona Vida de Louis Drax, um filme que tem uma extrema dificuldade em sintetizar suas ideias e chegar a uma concisão narrativa. Porém, a história de Louis Drax encontra saídas totalmente criativas que fogem do senso comum das produções nesse gênero atualmente, o longa é um daqueles pequenos grandes filmes, que surpreende pela maneira como constrói sua trama, um projeto que parece ter o frescor provindo de um universo infantil.

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