Crítica | Festa da Salsicha

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Após assistir ao filme Festa da Salsicha, o único pensamento possível é tentar entender o que se passa na cabeça dos criadores dessa animação. E não poderia ser diferente, a concepção do longa surge através de uma ideia de Seth Rogen, Evan Goldberg e Jonah Hill, nomes envolvidos em filmes como É o Fim, A Entrevista, Superbad: É Hoje, entre tantos outros. E talvez o único objetivo desses novos nomes da comédia hollywoodiana seja chegar ao auge do absurdo, e provavelmente Festa da Salsicha é o ápice disso.

O longa conta a história de um mundo em que os alimentos são seres vivos e totalmente racionais, vivendo nos supermercados à espera de serem comprados e levados para um lar. Para eles, depois daquelas misteriosas portas automáticas, há o paraíso em que deuses (os humanos) levarão aqueles seres para um lugar melhor, vivendo numa vida plena. O que eles não sabem é que longe do mercado, os planos para os alimentos são bem mais cruéis.

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O que não pode ser negado é que o longa encontra formas totalmente criativas de fazer essa transposição e de explicar as relações daquela sociedade, como esse mito religioso que eles acreditam. O longa começa, justamente, com o supermercado inteiro fazendo um número musical que explica sua religião e a crença nos deuses e naquele paraíso distante. Além de explicitar o contexto do filme, tal número funciona para mostrar as dinâmicas daquele mundo, já deixando claro que aquele não será um filme convencional.

Dentro desse contexto o longa elege como herói uma salsicha que se perde do pacote com alguns outros alimentos, e começa a questionar em tudo que eles acreditam, e o filme é da maneira mais esquisita sobre um personagem numa jornada de questionamento dos dogmas da sociedade em que vive. A grande questão é que isso se dá por meio de uma salsicha falante.

Na jornada existencial daquele alimento, o filme parece se divertir com alguns pontos. O primeiro, sem dúvida nenhuma, é que os realizadores buscam a forma mais criativa de representar o mundo real naquele supermercado, buscando sempre a forma mais absurda de fazer isso. Por exemplo, a prateleira de miojo, molho oriental e etc, que são representados como se fossem a Chinatown do local; ou ainda o setor de bebidas que vive numa constante “rave”, a perdição para os puristas; sem se esquecer da prateleira das mostardas de origem alemã, que transformam o mito cantado no início na comprovação da superioridade dos condimentados.

Esse último ponto é a chave para constatar o segundo ponto de diversão do longa: fazer piada com tudo e todos, sem nenhum pudor. Festa da Salsicha encontra-se nos limites do humor e do politicamente correto. Se por um lado não poupa nenhuma instância social, tem no filme piada com conflitos étnicos, religião, política, sexo e drogas; por outro, o longa também faz questão de colocar o dedo na ferida e muitas vezes provocando grupos ou temas que vivem em sua zona de conforto.

Por exemplo, o pão sírio e o bagel, um mulçumano e um judeu, obrigados a conviverem juntos, que pouco a pouco vão criando um sentimento mais forte que a amizade, ou mesmo a criação do mito do paraíso realizado pela água-ardente, que no filme é um típico índio americano. Assim, com essa postura provocadora, o longa assume um tom totalmente escrachado, não poupando palavrões ou piadas de gosto duvidoso, e tudo isso de forma proposital, Festa da Salsicha quer e consegue ser um atentado a moral e aos bons costumes; a sequência final é a prova cabal de disso.

Verdade que esse sentimento às vezes é extrapolado e o que é provocativo torna-se apenas exagero. Em alguns momentos, Festa da Salsicha parece querer chamar atenção para tudo e fazer com que todo o momento do filme seja engraçado. Dessa forma, há uma gratuidade nas falas dos personagens, palavrões e tiradas que parecem fora de hora, e é nesse momento que Festa da Salsicha revela seu humor mais adolescente, que apenas parece um punhado de piadas fáceis.

Felizmente, esses momentos alternam com sequências de gags visuais que sustentam a comédia do longa. Os diretores Greg Tiernan e Conrad Vernon tem seus momentos inspirados, como quando há um acidente entre carrinhos de supermercado e vários alimentos caem, concebendo um momento como se fosse uma catástrofe digno de um filme de guerra – cada alimento morto é filmado como se fosse uma perda gigantesca e é desse exagero que está a graça, e melhor ainda quando a câmera se distancia e mostra como a visão dos humanos veriam aquela situação, ou seja, um monte de alimentos inanimados rolando no chão.

Assim, é inegável que mesmo com suas irregularidades e exageros, Festa da Salsicha é um filme com ótimas ideias, e quando consegue ser provocativo constrói momentos bem interessantes. E, com isso, aquele mundo de animação, bem diferente dos padrões, torna-se uma das comédias mais interessantes do ano – isso não significa ser ruim ou bom, mas sim trazer algo que passa longe do senso comum. Assim, Festa da Salsicha tem o prazer de ser o filme mais absurdo do ano.

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