40ª Mostra de SP | Crítica: A Luta do Século

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A imprevisibilidade é um dos fatores chaves do cinema documental. Nesse tipo de filme é praticamente impossível possuir controle total do objeto a ser filmado. Isso sempre levará a um filme diferente daquele que foi idealizado, muitos vez mudando completamente o rumo, numa espécie de filme possível de ser feito; e em outras, a casualidade opera para reforçar as ideias do longa, algo que acontece no meio da projeção de A Luta do Século.

O filme dirigido por Sérgio Machado (Cidade Baixa) narra a história da rivalidade entre Reginaldo Holyfield e Luciano Todo Duro, dois boxeadores nordestinos que alcançaram a fama na década de 1990. A popularidade dessas figuras, que se demonstram interessantes só pelos seus nomes, provém de uma enorme rixa que um tinha pelo outro. Ambos lutadores não tinham receio de sair na mão nem mesmo fora dos ringues.

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O filme começa justamente com um vídeo que viralizou pela Internet, onde Holyfield e Todo Duro, no meio de uma entrevista num programa esportivo, se atracam, rolando pelo chão daquele estúdio, quebrando qualquer expectativa e até o cenário da televisão. Só com esse pequeno fragmento já da para ver o que se espera de A Luta do Século e seus personagens.

A partir de então, através de uma série de imagens de arquivos e uma narração onipresente, o filme mostra toda a trajetória dos dois icônicas lutadores, esportistas que colocaram o Nordeste no mapa do boxe. Assim, A Luta do Século vai trazendo uma série de detalhes acerca de seus protagonistas, traçando um paralelo entre eles e como os embates alteram a carreira de um ou de outro. De um lado do ringue Tudo-duro, talento nato, desleixado no treino, mas ágil nas batalhas e que sempre acabava falando demais; e do outro lado do ringue Holyfield, esforço em pessoa, forte, e que demonstra dureza a qualquer custo. Personagens totalmente opostos que dependem um do outro para constituírem sua fama.

Formalmente simples, o filme conquista desde o começo exatamente pelas figuras que retrata. A intensa disputa entre os dois deixa no chinelo as novelas criadas no UFC, por exemplo. De uma espontaneidade única, o que se vê são fatos inimagináveis dentro da lógica do esporte moderno. Uma relação que mexia com toda a população do Nordeste, que devia tomar partido naquele confronto. Todo-duro e Holyfield foram responsáveis por momentos icônicos do esporte nordestino e o filme rememora este fato sem nenhum julgamento.

Nesse bom e simples relato, o filme de Sérgio Machado ganha um adicional muito importante, o acaso. No momento em que o filme buscava fazer um retrato cotidiano dos boxeadores anos após a fama, surge a oportunidade de uma nova luta, por sorte a equipe do documentário estava presente para acompanhar desde o convite até a volta de Todo Duro e Holyfield aos ringues.

É interessante como o documentário é honesto com seu público, assumindo a imprevisibilidade daquela luta do século, não fazendo isso parecer uma escolha ou uma ideia da produção, mas sim um acaso que veio oferecer o desfecho ideal.

Assim, a película de Machado é bastante inteligente, se até a metade o filme mostra a ascensão e queda dos dois lutadores, fato que cria um envolvimento ímpar com seus personagens. No seu ato final concede uma improvável redenção a duas lendas fadadas ao esquecimento, como se o filme fosse presenteado pelo acaso e devolvesse esse presente a Holyfield e Todo Duro.

A Luta do Século é um bom filme não somente por possuir dois grandes personagens, mas também por entender e aceitar as possibilidades do acaso. Fato que concede a este filme até seu título, num ato que reverbera na grande glória de Holyfield e Todo Duro.

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