Crítica | A Luz Entre Oceanos

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A Luz Entre Oceanos começa com uma sequência que mostra o personagem principal, Tom Sherbourne (Michael Fassbender), andando por uma bela cidade litorânea da Austrália rumo ao seu novo trabalho como faroleiro em uma pequena ilha. Nesses primeiros minutos, o filme constrói imagens que parecem ter saído de um quadro de William Turner, e com sutileza filma Tom trocar olhares despretensiosos com Isabel Graysmark (Alicia Vikander), conectando os dois protagonistas desde o primeiro segundo. Essa introdução evoca toda uma atmosfera romântica no sentido mais puro da palavra, que remete a um pensamento de literatos e artistas do século XIX, em que o amor encontra-se na natureza e na dor.

O filme possui esse sentimento ao longo de todos os seus 133 minutos, o pensamento romântico permeia todos os temas e ações dos personagens. Desde o isolamento de Tom para encontrar a paz na natureza longe do homem e de sua civilização. Ou a maneira como o romance com Isabel faz aquele homem voltar a acreditar na sua vida. E principalmente como os atos movidos pelo amor e pela abnegação levam a tragédia, este último ponto sendo a grande força motriz do filme.

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É interessante notar que, mesmo com longas em sua carreira, Derek Cianfrance já faz deste o tema central de sua obra. São sempre os atos passionais, que servem como provas de amor a outra pessoa, que levam as personagens de Cianfrance à desilusão e à tragédia. Em A Luz Entre Oceanos isso se materializa na figura daquela criança que chega como uma dádiva para o casal que tentava sem sucesso ter um filho. É num ato de amor que Tom não devolve a criança, na tentativa de conceder a esposa e a si mesma a paz que eles tanto desejavam. É essa ação totalmente passional e de abnegação, ou seja, que nega tudo o que aquele homem faria numa situação normal, que fará o casal partir numa jornada trágica, em que a culpa está o tempo todo presente junto do amor.

Infelizmente, mesmo estando no tema central de sua obra, A Luz Entre Oceanos é o filme mais fraco de Derek Cianfrance desde que começou sua carreira internacional. E mesmo que haja bastante interesse nos pontos que diretor traz, parece haver uma pressa em A Luz Entre Oceanos que impossibilita o espectador a embarcar no psicológico de seus personagens.

Muito disso se deve ao fato que a narrativa parece ter uma enorme estrutura, que o longa deseja enxugá-la e condensá-la, o que curiosamente deixa o filme mais arrastado. A Luz Entre Oceanos parece querer chegar logo em seu conflito principal que gira em torno do bebê, do casal e da mãe biológica da criança. E para isso, o filme apressa-se em seus primeiro minutos, justamente quando constrói a relação entre o casal principal. Dessa maneira, um filme sobre atos de amor não consegue fazer com que se sinta esse sentimento ente Tom e Isabel, a paixão deles passa de maneira tão rápida, que é difícil compreender as razões daqueles atos movidos pelo amor, uma vez que nota-se pouco esse sentimento em cena.

Quando o filme finalmente chega a seu conflito principal, em que esses atos recebem suas consequências, o longa demonstra certo despreparo, não chegando a uma necessária concisão. Esse momento refere-se ao auge emocional do filme, porém como a mãe da criança abandonada aparece apenas nesse momento, o longa necessita fazer uma série de apresentações que parecem estar distantes da profundidade emocional que o filme necessita. É justamente nesse ponto, onde já se espera encontrar a tragédia causada pelo ato de amor, que o filme começa a realizar uma série de flashbacks, funcionando exclusivamente como muleta narrativa para justificar as reações dessa nova e importante personagem.

Assim, as memórias que mostram a mãe daquela garotinha, interpretada por Rachel Weisz, com o seu falecido esposo são uma forma de Deus Ex-Máquina em A Luz Entre Oceanos, ou seja, um elemento externo que vem para solucionar todo o problema narrativo. Os diálogos entre aquele homem e sua esposa surgem apenas quando convém, numa forma de justificar as ações recorrentes na trama, facilitando o desfecho do casal principal e de como a mãe biológica pensa e age a cerca de tudo o que ocorreu.

A Luz Entre Oceanos se esforça para driblar seus furos narrativos e sua deficiente relação psicológica. Nesse sentido, ressalta-se o trabalho de Fassbender que desde o primeiro minuto de filme tem uma entrega emocional fascinante, sendo a figura que mais sente as consequências do ato de amar, demonstrando mais uma vez ser um interessante ator. O mesmo ocorre com a perfeição técnica do longa, com planos extremamente delicados que sempre evocam as pinturas do Romantismo. Ou até mesmo pela melancólica trilha de Alexandre Desplat, que concede a atmosfera certa àquela narrativa que está longe de ser um simples romance. Detalhes que demonstram a pretensão de A Luz Entre Oceanos, mas que não escondem seus importantes defeitos.

Dessa maneira, o frágil longa de Derek Cianfrance possui uma série de ideias e temas que logo saltam aos olhos. A Luz Entre Oceanos poderia ser um grande épico sobre o amor, no entanto acaba ficando à deriva por causa de sua deficiente construção emocional, um projeto que, no fim das contas, acaba se mostrando apenas regular.

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