Crítica | Mundos Opostos

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Certos assuntos e acontecimentos são tão marcantes que se tornam incontornáveis para o cinema. Imagino que a interminável crise política-financeira da Grécia seja um tema bastante presente na atual e pouco vista produção grega. Mundos Opostos, falado parte em grego, parte em inglês, é um filme com ambição de chegar a outras partes do mundo e expor na tela o momento que aquele país vive.

Dessa forma, Mundos Opostos é um filme episódico que conta três histórias que se passam no atual momento grego e estão interligadas de alguma forma. Com isso, o segundo filme de Christopher Papakaliats faz de tudo para que seja relevante e ao mesmo tempo popular, contando até mesmo com a presença do oscarizado J. K. Simons, fazendo seu filme ser agradável com uma narrativa e construção visual bastante simples independente dos temas que aborda.

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Assim, o que parece mais notório nesse Mundos Opostos é o fato de que Papakaliats faz um comentário sobre o momento atual através de três relacionamentos amorosos, como esses envolvimentos afetivos se desenrolam nessa situação. Que fique claro que essas relações são bastante óbvias colocando sempre um Grego relacionando-se com uma pessoa de outro lugar do mundo, tentando evidenciar metaforicamente a relação entre este país afundado na crise com outros partes do planeta.

Mundos Opostos conta, então, a história de uma garota que se apaixona por um simples imigrante sírio, enquanto seu pai entra para um grupo extremista e xenofóbico. Acompanha, também, um homem casado e pai de um menino que sofre de crises depressivas todas as noites, com seu casamento não indo nada bem, ele começa a se envolver com uma moça sueca sem saber que esta é na verdade uma empresaria contratada para reerguer a empresa em que este homem trabalha, mesmo que para isto seja necessário demitir metade daquele escritório.

E, por fim, a história de uma senhora que começa a se interessar por um simpático professor de história alemão, e mesmo com seu marido em casa,a senhora passa um dia da semana passeando num super-mercado com aquele homem, no único escape possível para sua desilusão cotidiana. Esses episódios funcionam como filmes independentes dentro do longa e parecem sempre acabar em seu clímax, para finalmente ser revelado o laço entre essas história e assim ser possível concluí-las.

E o mais interessante desses curtas é realmente sua proposta metafórica. O primeiro segmento é explicitamente sobre a relação entre população grega e imigrantes de áreas críticas do mundo, como para alguns a vida naquele país se apresenta como a melhor opção, e mesmo que essa população ocupe lugares miseráveis de moradia e trabalho sempre haverá um movimento de rejeição para com os imigrantes, nesse primeiro trecho há a conciliação, amor entre gregos e imigrantes, na mesma medida que há o ódio.

O segundo segmento mostra a relação entre a Grécia e países mais desenvolvidos, que de certa maneira se vem longe da crise, no filme o que fica evidente é essa ação através do capitalismo financeiro que pode reerguer o país economicamente mesmo, que traga grandes prejuízos sociais. Já a última, entre gregos e alemães faz uma metáfora acerca de países que demonstram certa tolerância com a causa da Grécia, J. k. Simons, assim como Ângela Merkel na vida real, está ali numa tentativa de mediar conflitos de tentar pensar soluções para aquele momento, embora seja incapaz de entender de fato o que ocorre por ali. É muito inteligente que este último episódio se passe nos encontros dentro do supermercado, o alemão leva a grega para dentro daquele estabelecimento, ele detendo o poder de compra e ela sonhando e idealizando o local que mal pode entrar, o palco ideal para um amor impossível.

Mas que fique claro, Mundos Opostos é um filme que tenta o tempo todo ser um produto agradável. Logo, as questões colocadas acima operam no subtexto do longa, ficando subordinado a essas três tramas amorosas. E é nesse sentido que o filme se atrapalha, não construindo de maneira interessante seus dramas. O que ocorre nessa chave é, na verdade, uma repetição de clichês, sem subvertê-los em momento algum.

Sendo assim, a primeira história é o típico romance impossibilitado por uma questão familiar; o segundo o homem casado em meio a um novo amor, que fica em dúvida sobre a estabilidade de sua família ou buscar uma nova vida; e o terceiro a fofa e bem conhecida história sobre amor na terceira idade, que de repente, na fase mais madura, o romance pode significar uma nova perspectiva. E se essas premissas já são carregadas de obviedade, há construção da mise-en-scène é igualmente atabalhoada, parecendo, por muitas vezes, ser uma telenovela em forma de filme, sendo muitas vezes bastante óbvia – como o chefe da personagem Sueca que fala com uma voz amedrontadora pelo viva voz de um telefone, ou bastante piegas – como uma série de transições que são de gosto bastante duvidosos.

Se essas diversas histórias apresentam grandes problemas, algo que poderia auxiliar o desenvolvimento narrativo seria o conhecimento dos laços entre aqueles personagens. O cinema por si só é um jogo entre o que será transparente ao espectador e o que será opaco, os fatos e informações que serão escondidos ou revelados. Sendo assim, é uma escolha chave esconder as relações entre aqueles diversos personagens, algo que dá a sensação de se estar em histórias completamente diferentes, enquanto poderia deixar evidente o que os conecta, para que o envolvimento emocional com um personagem se estendesse ao próximo. Mundos Opostos sofre de uma falta de unidade incrível, ainda que todos segmentos tratem dos mesmos temas através de uma mesma abordagem.

Mundos Opostos é um filme que anseia falar sobre pontos extremamente importantes que tocam seu país, isso envolto de uma tentativa de ser acessível, popular e agradável, e talvez seja por esta questão que o filme chegue ao Brasil. No entanto, com algumas falhas, exatamente essa tentativa pode prejudicar, se não apagar, as boas intenções de Mundos Opostos.

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