Crítica | Animais Noturnos

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Apenas em seu segundo longa, Tom Ford já criou uma aura em torno de seu nome no cinema. Após o bom Direito de Amar (2009), o estilista e cineasta estreia seu novo filme e com ele já ganhou o prêmio do júri no famoso Festival de Veneza: Animais Noturnos. Diante disso, é necessário distanciar de uma pretensa marca autoral para identificar as potencialidades e propostas no filme de Tom Ford.

Animais Noturnos acompanha alguns dias da vida de Susan Morrow, uma bem sucedida marchand de arte que vive uma crise no casamento. Uma noite, ela recebe um livro de seu ex-marido dedicado a ela. Nas páginas, Tony, um homem comum, parte para uma jornada visceral, a fim de encontrar os culpados por um crime contra sua família. Logo, Susan se vê absorta naquela narrativa e o grande jogo do filme é o paralelismo entre a vida daquela mulher, seu passado e a ficção que lê.

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Nessas três instâncias, o longa tenta criar uma atmosfera no plano cotidiano e no universo extremamente dramatizado. Animais Noturnos é um filme de atmosfera, e esse é a grande conexão entre os mundos apresentados pelo filme. Não há no livro referências claras à vida real de Susan, mas é como se eles partilhassem um mesmo sentimento. Dessa forma, existe uma relação pouco óbvia entre o real e a ficção, fato que por si só causa uma instigação muito maior. E parece que são justamente essas inesperadas conexões que fazem com que a obra literária provoque uma epifania na protagonista.

Se a premissa é de fato bastante interessante, nota-se que o filme é incapaz de mergulhar no âmago de seus personagens, de escancarar as obras emocionalmente. Sendo assim, a partir da metade do longa-metragem, a trama parece ser uma busca por encontrar elementos visuais que conectem as duas histórias, proporcionando elipses elaboradas, uma luz que se repete, uma posição que se confunde, um olhar, um local e assim por diante. Com isso, é evidente que pouco a pouco o filme vai perdendo sua força, aquilo que no começo instigava vai se esgotando, tornando-se apenas um thriller interessante em seu plano ficcional.

Em Animais Noturnos não é tão fácil constatar esse limite entre pretensões e êxitos. Talvez a característica mais interessante desse projeto seja justamente esse jogo entre as ficções. Por que o drama de Susan deveria ser mais importante que o de Tony se ambas são obras ficcionais? É através desses questionamentos que Animais Noturnos muitas vezes parece uma incansável brincadeira entre o realizador e o público. Como se o filme por muitas vezes nutra prazer em ludibriar sua audiência.

Em função disso, por muitas vezes Animais Noturnos toma uma postura quase jocosa em relação ao público. O longa faz com que todos as expectativas sejam quebradas, não entregando, necessariamente, o que se espera ao longo daquelas diversas histórias. Na película escrita e dirigida por Tom Ford essa ruptura de expectativa não ocorre na chave de gerar surpresas e reviravoltas, mas apenas não entregando aquilo que deseja que ocorra. Como se evidenciasse que aquelas ficções seguem suas próprias regras próprias, não os anseios de um espectador comum, assim como é Susan.

Principalmente em seu desfecho, essa relação fica bastante clara. Parece que o filme é construído apenas para brincar com a condição do espectador, que fica na expectativa dos rumos esperados pela trama, torcendo para que a tensão do livro contamine a vida de Susan. Em uma breve sequência, Ford reproduz um clichê dos filmes de terror do momento, construindo um susto de maneira bastante absurda, revelando um ar de superioridade que está ali para jogar com a condição do espectador. Animais Noturnos é acima de tudo uma brincadeira na relação entre público e obra e esse é, sem dúvida, a maior qualidade do filme.

Talvez isso não seja o suficiente para sustentar o longa como um todo. É verdade que ele tem grandes atuações desde Amy Adams como Susan, até Jake Gyllenhaal no duplo papel de Tony, na ficção e do ex-marido da protagonista na vida real, passando por Michael Shannon na pele de um xerife linha dura nas páginas do livro, e Aaron Taylor-Johnson como um dos malfeitores do thriller policial, que faz aqui a melhor performance de Animais Noturnos. Numa atuação que o objetivo é, desde o início, levar os personagens ao limiar de seu lado mais animalesco. Uma das qualidades do longa é justamente seu afiado elenco, mas nem isso significa êxito absoluto.

O filme de Tom Ford, mesmo com suas performances, com seus jogos narrativos e até um preciosismo técnico perde, força ao longo de suas quase duas horas. E força não quer dizer momentos impactantes, reviravoltas e tiroteios, mas sim, conseguir organizar todas suas ideias e concepções de modo que coloque seus personagens e público num espiral inescapável de sensações sentimentais e intelectuais.

Não que Animais Noturnos seja um filme ruim, pelo contrário, o trabalho de Ford está acima da média do que é visto por aí. No entanto, na construção desse jogo fílmico – que muitas vezez coloca a obra acima de seu público, a película vai perdendo força e vai deixando de envolver o espectador nas sensações daqueles diversos personagens fictícios, resultando num exercício narrativo, bom, mas nada acima disso.

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