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Crítica | Capitão Fantástico

Publicado por Giovanni Rizzo

21/12/2016 19:04

Já há um bom tempo o filme indie tem espaço cativo no cinema americano. Esse fato tem consequências boas e ruins, a primeira por conceder uma pluralidade criativa a uma cinematografia tão engessada por sua imensa rede industrial. No entanto, essa ascensão do indie nos Estados Unidos faz com que esse tipo de filme torne-se uma espécie de gênero cinematográfico, com clichês específicos e formas de se filmar particulares, que em algumas vezes colocam o cinema independente numa espécie de lugar comun. Capitão Fantástico está totalmente inserido nessa conjuntura.

O longa conta a história de um pai que vive com seus seis filhos no meio de uma floresta. Eles sobrevivem do que a natureza provém e a educação das crianças é baseada na família e nos livros que aquele homem possui. Assim os seis jovens aparecem lendo sobre física quântica, biologia, Noam Chomsky entre outras coisas. Até que um dia descobrem que sua mãe, que estava internada na cidade, veio a falecer, os seis partem rumo ao velório para valer os desejos da matriarca: ser cremeda sem cerimônia alguma.

Com essa premissa, o filme segue claramente dois fios narrativos, o primeiro político, tentando registrar a posição contracultural de família, numa tentativa de seguir um pensamento hippie de enfrentamento com o sistema vigente. Do outro lado, o longa tenta adentrar nas relação emotivas e sentimentais daquela família tão excêntrica, e mostrar de fato os laços construídos por eles.

Em Capitão Fantástico, essa verve política é muito mais do que simples contextualização. Essa ruptura com o sistema é o que move o modo de viver daquela família. O excêntrico deveria ser muito mais do que um simples estilo de vida, mas uma afronta ao modus operandi da sociedade, nem que isso venha por meio da exclusão total, da revolução individual e não coletiva.

Assim, esse é o ponto mais evidente em Capitão Fantastico de um cinema indie marcado pela anestesia, cinema em suma concliatório visando ser acima de tudo agradável. Dessa forma, as posições políticas dos personagens e do próprio filme funcionam na chave do cômico/fofo. É encantador, até para quem não concorda, ver uma garotinha de oito anos dizer com convicção que resistir é poder, mas politicamente bastante frágil.

É compreensível, que em tempos de extrema bipolarização e intolerância política, a leveza seja o caminho mais fácil para falar de ideologia A ou B. Todavia, é curioso notar como a contracultura que na década de 1970 de tão incomoda que era terminava com um tiro a queima roupa do conservadorismo, como em Eazy Rider (1969), por exemplo, tenha se tornado tão conciliatória, tão poeril e tão agradável. Em Capitão Fantástico posições políticas são meras excenticidades.

Felizmente, Capitão Fantástico não atua apenas na chave política, mas investe num poder emotivo extremamente forte. Capitão Fantástico é também um longa sobre o amor paternal, de um homem que cria seus filhos em cima de preceitos que ele considera o certo, provendo assim a sua forma de amor. Dessa maneira, a produção possui em sua essência um sentimento arquetípico muito forte, ligações patriarcais que surgem desde a origem primitiva do ser humano.

Na sequência inicial do filme, Matt Ross filma com extrema delicadeza e proximidade uma espécie de rito de passagem, na qual os seis adolescentes estão cheios de lama para que Bodovan, o mais velho dos filhos, mate um cervo. Quando o jovem completa a missão seu pai passa o sangue do animal no rosto do filho, afirmando que agora aquele menino se tornara um homem, o pai abre um singelo sorriso. No longa são cirados laços de pais e filhos que provém desde os rituais mais primitivos, resgatado aqui por aquela família.

Sempre que o longa segue por esse caminho da sensibilidade há um êxito gigantesco. Tanto pela câmera de Ross, que não tem medo de se aproximar nos momentos mais sensíveis, como nas duas belíssimas sequências finais, quanto pela presença magnetizante de Viggo Mortensen como o patriarca daquela familia. O ator imprime em seu rosto um amor que está nas ações, muito mais do que nas expressões de carinho propriamente dita. Como um simples acompanhar de ritmo de seu filho com o violão, enquanto o pequeno batuca num carrom, transformando a pungência do menino em festa, ou na voz firme do ator ao dar uma ordem, que gera uma feição prazerosa quando tudo sai da forma que anseia.

Capitão Fantástico é um filme que, felizmente, não tem medo de explorar seus momentos mais tocantes. Sendo, dessa maneira, um ótimo exemplar do que significa essa gênero indie, um cinema com problemas e leveza excessiva, mas que muitas vezes elabora momentos extremamente intensos e tocantes.

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