Crítica | Assassin’s Creed

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Assassin’s Creed é um sucesso absoluto desde 2007, quando o primeiro jogo foi lançado. Mesclando eventos e personagens reais, com teorias conspiratórias e elementos da ficção científica, o game conquistou jovens com sua ação impactante e seus quebra-cabeças históricos. Num salto de modernidade, sua produtora, a Ubisoft, apostou que a sua narrativa caberia em outros meios e logo o clã de assassinos fez sucesso nas páginas do livro e causou burburinho imediato ao ser anunciado nos cinemas. Assassin’s Creed deixou de ser um sucesso dos vídeo-games para ser um pretenso caso de transmídia.

A palavra da moda da teoria da comunicação consiste em uma narrativa ficcional que permeia por diversas mídias, relacionando-se entre elas mas funcionando de forma independente uma da outra. O fenômeno transmídia serve não somente para expandir o universo de um produto Cultural, mas também para que ele possa alcançar diversos públicos, a fim de que os filmes possam levar mais leitores para os livros, que possam levar mais gamers para os jogos, e etc. Diante desse panorama, o filme de Assassin’s Creed seria um passo importante para a consolidação dessa narrativa transmidiática.

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Dessa forma, o longa já nasce como um projeto um tanto quanto ambicioso, sendo investido um grande montante de dinheiro, com astros nomeados ao Oscar, como Michael Fassbender e a francesa Marion Cotillard, tudo sob a régia de um promissor diretor, o australiano Justin Kurzel, do interessante Macbeth – Reinado de Sangue. Todavia, nesse processo transmidiático é necessário compreender que tudo parte da boa e velha adpatação para que isso realmente funcione. Então, é necessário que se compreenda as particularidades de cada linguagem e entender como elas entram em diálogo. Cinema, games e livros são meios diferentes e mesmo que contem uma mesma história, suas regras devem ser respeitadas.

Assim, é evidente que um bom roteiro de um jogo pode não funcionar nas telas de cinema, assim como uma excente narrativa fílmica possa gerar uma pífia obra literária. Assassin’s Creed sofre justamente disso, um longa que parece não compreender as regras do meio em que habita nem mesmo os caminhos desse processo transmidiático. Não seria exagero dizer que o longa como um todo parece um vídeo introdutório para o game que o espectador nunca pode pular.

Escrito a seis mãos por Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Colage, o filme é narrativamente muito frágil, numa tentativa de apresentar os fatos de forma dinâmica, Assassin’s Creed torna-se um longa apenas confuso, que tenta colocar seu público no meio da ação sem que este consiga compreender as regras daquela ficção e essa escolha obriga o longa a ter que explicar verbalmente tudo o que foi visto, nessa pressa em busca de um texto dinâmico gasta-se tempo com verborragia ao invés de atos dramaticamente importantes e envolvimento emocional.

Assassin’s Creed se trata basicamente da história de Call Lynch que, à beira de sua morte, descobre ser descendente de um integrante de um antigo clã de assassinos. O protagonista é convidado por uma organização a retomar as memórias de seu antepassado, a fim de recuperar um importante artefato. Dessa forma, o filme se concentra entre o passado e o presente (ou um futuro próximo). E se no longa Lynch deve entrar numa máquina para realizar um sincronização voluntária com a vida de seu antepassado, o longa faz uma conexão muito forçada entre esses dois tempos.

Não há identificação nem com um lado da história nem com o outro, isso porque nos dois núcleos o filme simplesmente alterna em momentos explicativos e grandiosas cenas de ação, sem se preocupar com a narrativa, gerando um descaso emocional por parte do espectador em relação ao que se vê. Nesse fluxo sempre explicativo o longa demonstra apenas um problema de timing em que as ações fundamentais parecem ter menos tempo de tela que essa verborragia constante, e isso contamina até mesmo o clímax do longa. Assassin’s Creed só se conecta com quem já jogou ou leu algo daquele universo, porém isso é muito pouco para um pretenso projeto transmidiático.

Diante dessa fragilidade de Assassin’s Creed é difícil se conectar também com as ideias de Kurzel. O preciosismo visual já visto no seu longa anterior aqui parece não conversar com a maior parte do filme. O visual rebuscado elaborado pelo diretor e pelo fotógrafo Adam Arkapaw confere ao longa apenas um ar presunçoso que nunca é justificado. A iluminação cênica que investe na luz sempre presente do sol dialoga com o passado ensolarado no meio da Espanha da Santa Inquisição, no entanto não conversa em nada com o futuro em que Assassin’s Creed passa a maior parte do seu tempo, fazendo com que tudo aquilo soe extremamente artificial. Esse virtuosismo que buscava conferir um estilo barroco a um blockbuster acaba sendo apenas mais uma pretensão nunca alcançada por completo.

Algo que vale levantar de positivo no trabalho de Kurzel é justamente um diálogo com a linguagem vista nos videogames, algo que vai muito além da câmera tremida e da edição acelerada. O diretor constrói planos com movimentos aéreos fisicamente impossíveis, e que só poderiam ser feitos via computação gráfica, esse tipo de filmagem é extremamente presente nos jogos e trazer isso para o filme é um diálogo interessante entre as duas linguagens. Outro fator inventivo é empregar uma câmera subjetiva quase sempre em que um dos personagens desfere um golpe numa de suas batalhas, como se o longa estivesse propondo que o público fizesse parte da ação como num game.

Se Kurzel apesar de sua presunção se esforça para chegar a alguma inventividade diante de um roteiro tão fraco, é Michael Fassbender que demonstra maior esforço. É impressionante como o astro, que também assina a produção do filme se entrega emocionalmente a projetos que pareçam simples filmes de ação. É possível enxergar a raiva do personagem em cada expressão de Fassbender, algo que não se vê nem em Cotillard, muito menos em Jeremy Irons, numa atuação extremamente fria que mais uma vez faz o filme se aproximar da artificialidade.

Assassin’s Creed é muito mais um filme de pretensões do que de boas intenções. Se há acertos ao longo da trajetória do filme é muito mais por um esforço para atender as expectativas do que por qualquer outra coisa. Expectativas essas nunca alcançada ao longo da projeção, se a finalidade de Assassin’s Creed era realizar um projeto fora dos padrões e que marcasse a era do transmídia, a franquia apenas demonstrou que em termos cinematográficos Assassin’s Creed não entendeu as regras do jogo.

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