Crítica | Até o Último Homem

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Até o Último Homem começa com o plano de jovens soldados trucidados pelo horror da guerra. A estratégia tem como objetivo claro o choque, a fim de validar a narrativa que será vista a seguir. A dor e a violência são uma forma de justificar aquela história e mostrar sua importância, como se diante daquele horror pode ser apresentado uma espécie de iluminação, um milagre divino diante do caos humano. O filme de Mel Gibson tem, aparentemente, uma justificativa divina para filmar a guerra.

Assim, não é complicado encontrar uma conexão entre Até o Último Homem e o filme mais falado de Gibson na direção, A Paixão de Cristo. Ambos os longas se concentram nessa dor, principalmente utilizando-se nesse choque inicial para assim encontrar o caminho da salvação. Mel Gibson defende um cinema do flagelo e Até o Último Homem transfere essa condição vista em Cristo para o fervoroso protagonista do longa.

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O longa narra a história de Desmond Doss, um recruta do exército americano que se recusa a pegar em armas e visa ir a guerra para ajudar e salvar os homens no campo de batalha. Cristão fervoroso, o protagonista vê a guerra como uma missão dada por Deus e, dessa forma, nenhum mandamento Dele deve ser ferido e seguirá assim lutando contra tudo e todos. Divido visivilmente em três partes, Até o Último Homem contempla a juventude do rapaz numa cidade da Virgínia, o seu período na academia militar e finalmente o campo de batalha no Japão, mais precisamente em Okinawa, nome que dá origem ao título original do filme.

São nesses três períodos que o longa vai construindo seu discurso entre a dor e iluminação, a salvação sempre aliado a penação e o flagelo como o caminho para o milagre. Na primeira parte do filme há toda uma construção a cerca de onde surge a fé e as motivações daquele garoto. O interior dos EUA na década de 1940 é filmado com um rigor clássico por Mel Gibson, no entanto, como é comum ao longo de sua carreira de cineasta, o diretor confunde classicismo com sentimentalismo, o que deixa o longa à beira de se tornar piegas. O envolvimento de Doss com a família (mesmo que este seja tumultuado) e com a futura esposa são concebidos através de notas de violinos e de uma luz alaranjada que está sempre iluminando a vida daqueles personagens, construindo uma atmosfera muito mais exagerada e quase apelativa do que verdadeiramente emocionante.

Se essa primeira parte há um incômodo sentimentalismo em Até o Último Homem, no segundo ato há o ponto central do filme e seu melhor desenvolvido. Na academia do exército é onde o ponto de vista do protagonista entra em conflito com o mundo real. Os ideias de Doss são diametralmente opostos as rígidas leis do exército, a lei dos homens em confronto com as leis divinas. Nessa circunstância a ideia do flagelo defendida por Gibson se faz compreensível, aquela academia, aquele treinamento é uma provação para o protagonista para que ele possa finalmente cumprir sua missão.

Se na obra-prima de Stanley Kubrick, Nascido para Matar (1987), os recrutas passavam por uma lobotomia através do treinamento militarista, aqui é como se o herói dessa história tivesse sua mente blindada por uma dádiva, e mesmo com as pancadas recebidas por aquele sistema Doss segue com seus ideais, com sua missão. Nesse ponto da projeção é o momento em que tanto personagem quanto filme defendem melhor o seu pensamento.

Finalmente, Até o Último Homem vai ao campo de batalha e se tecnicamente as cenas de batalha são impecáveis, é justamente aí que demonstra sua fragilidade ideológica. E antes de qualquer coisa, qualquer ato é ideológico, aqui não falando de ideologia política, mas de visão de mundo em si, optar por uma câmera na mão ou uma câmera no tripé por si só já é ideologia. Assim, a representação da cordilheira de Okinawa é como se os bravos soldados americanos chegassem realmente ao inferno. Basta notar que a primeira vez que os recrutas escalam o lugar eles são recebidos com uma chuva de sangue, no sentido literal, mas que funciona muito mais como metáfora de um lugar que representa o mal encarnado, sem humanidade alguma.

Essa relação é bem evidente e colocada até mesmo num diálogo, um general pergunta se Doss realmente sabe que encontrará o diabo do outro lado, e o herói responde que sim. Em Até o Último Homem o humanismo, a dádiva e a iluminação do protagonista está apenas em um lado e servindo como mais uma arma de guerra. Estranhamente Mel Gibson concebe um filme religioso que parece anti-armamentista, mas nunca recusa de seu pensamento bélico. Até o Último Homem está longe de ser um filme anti-guerra, e não necessariamente é necessário ser um, todavia a grande questão é que a espiritualidade e essa missão divina de Doss é colocada favorecendo apenas um lado do conflito. O discurso visual e textual do filme é que Deus protegerá aqueles homens porque estão do lado certo, sem ao menos perpassar por um pensamento complexo de que do outro lado também há o mesmo sofrimento, algo muito menos ideológico e muito mais humano.

Retomando Nascidos para Matar, há no filme da década de 1980 um diálogo famoso em que o soldado explica porque utiliza um símbolo da paz ao lado dos dizeres “Born to Kill”, segundo ele representa a própria contradição humana, e porque não a própria contradição da guerra. Em Até o Último Homem o contraditório quase nunca é colocado em pauta, Doss é só a bondade e esta condição serve somente ao exército americano. Mel Gibson realiza um filme que enxerga e narra os fatos apenas por uma perspectiva e colocar isso como justificativa divina é um tanto quanto perigoso.

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