Crítica | Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood

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É impossível no imaginário do audiovisual brasileiro rejeitar a figura dos Trapalhões. As personas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias marcaram mais de uma geração e o humor ingênuo foi sinônimo de sucesso certeiro em termos de comédia no país. Não é a toa que a primeira versão de Os Saltimbancos Trapalhões entrou para uma lista de 100 melhores filmes do cinema brasileiro.

Essa espécie de remake referencial utiliza-se exatamente todo esse imaginário. Esse novo filme dos Trapalhões é uma ode ao grupo e suas piadas mais clássicas, em seu modo de fazer comédia e de como aquilo conquistava o público. Dessa forma, em Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood tudo que possa parecer demodê ou fruto de uma outra época justifica-se por essa homangem, como se fosse o epílogo de uma importante história do audiovisual brasileiro.

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O filme é cheio de figuras conhecidas, seja do público mais antigo como Renato Aragão, Dedé Santana, Roberto Guilherme, que reproduzem seus já conhecidos personagens, e também permeado de rostos mais novos como o galã global Rafel Vitti, Leticia Collin, Aline Moraes e Emílio Danta. Há uma espécie de diálogo com o presente mesmo que se trate de um filme completamente ancorado no passado. O longa segue por linhas bem simples, acompanhando a trajetória de um circo prestes à falência, com o Barão dono do entretenimento apelando para os mais diversos tipos de negócio para dar uma sobrevida ao local, realizando leilões de gado, comício de prefeito e até mesmo o risco de transformar o picadeiro em estacionamento. Em paralelo, Didi e a filha do proprietário sonham com um espetáculo que possa dar ao circo novos tempos de glória.

Nessa simples trama, Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood revela o que tem de mais problemático, mas também pontos surpreendentes em diversos sentidos. É curioso perceber como o longa é falho na sua construção dramática. Mesmo com sua premissa simplória, há uma dificuldade em encontrar concisão e a objetiva. A narrativa do novo Os Saltimbancos Trapalhões é bem conhecida, a famosa reconstrução do espetáculo à beira do fim, e se isso fosse reproduzido satisfatoriamente já seria um grande êxito, já conseguiria passar a sua mensagem com sucesso.

Em Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood parece haver uma divisão em núcleos narrativos, uma vontade imensa de complicar o que é simples por natureza. Assim, o filme reparte a história do circo em outros blocos, como a história de amor entre a filha do dono do circo e o trapezista; a da garota que sonha em ser cantora mas é obrigada a ser assistente da sua tia, uma falsa hipnotizadora; os sonhos de Didi que profetizam o próximo espetáculo; os planos do vilão Satã junto com sua companheira para finalmente venderem o circo e ficarem com o dinheiro. Essa série de segmentos narrativos faz com que o longa contenha muita informação, que nunca é plenamente desenvolvido devidamente. Os conflitos ali presente são apresentados e resolvidos de maneira atropelada, como se o filme tivesse que correr para fechar todas suas pontas. E o pior, esses nichos dramáticos não necessariamente ajudam a desenvolver aquela linha narrativa principal, o que reforça ainda mais a percepção de que o filme possui alguns blocos que parecem perdidos, nesse anseio prolífico de complicar o que era bastante simples.

Se todas essas rebarbas narrativas fossem aparadas de Os Saltimbancos Trapalhões, a ode nostálgica ao espetáculo mabembe seria ainda mais pulsante. E é nessa preservação da memória que o longa se sutenta. Dessa forma, é curioso como Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood se aproxima de outro filme brasileiro, o badalado Aquarius (2016) – Sonia Braga assim como Didi já fizera sucesso no país e são marcos de uma memória audiovisual. O circo, assim como o prédio no filme de Kleber Mendonça Filho, é a resistência de algo que já não tem espaço no cenário brasileiro; Aquarius é sobre a resistência da memória e em Os Saltimbancos Trapalhões isso se faz presente no humor ingênuo dos Trapalhões, ainda que aqui só estejam Didi e Dedé, é possível escutar as risadas de Zacarias e os “cacildis” de Mussum.

Evidentemente que esse longa não possui as pretensões de um Aquarius, mas a questão presente é esse sentimento nostálgico que conecta os dois filmes. Se no filme de Kleber há toda uma construção para que sinta esse acúmulo de memória em torno dos objetos, dos cenários e da própria protagonista, aqui isso se faz de maneira espontânea; é Didi começar a cantar as músicas dos Saltimbancos escritas por Chico Buarque, que diversas camadas intertextuais ligadas pela afetividade da memória se fazem presente.

Os Saltimbancos Trapalhões utiliza-se muito bem desse recurso, a cada número musical que se inicia é como se o longa entrasse numa bolha que o exclui de todos aqueles defeitos mencionados nesse texto. Ainda que essas sequências pareçam jogadas na trama, ainda que a encenação do diretor João Tikhomiroff não faça do espetáculo circense um espetáculo cinematográfico, aqueles momentos musicais tornam-se janelas para um passado, viram cenas nostálgicas de uma época já finalizada, e é dessa forma que aquilo que de longe pode parecer tão demodê, tão piegas, tão longe da realidade atual, torna-se atrativo novamente.

Assim, Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood é nada mais nada menos do que uma homenagem, uma forma de trazer novamente a figura dos trapalhões às telas, para assim se fazer presente. E que bom que é apenas isso, só assim para o filme começar com uma brincadeira em que Didi ganha um Oscar e isso não pareça vergonhoso ou fora de hora, só assim para que Mussum e Zacarias possam voltar à vida, só assim para que um humor de outro tempo funcione bem nos cinemas de 2017. Nesse epílogo de Didi e sua trupe, o picadeiro apaga suas luzes em grande estilo.

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