A animação é um segmento que vem crescendo consideravelmente no cinema brasileiro. No ano passado o acontecimento mais notável do ramo foi a indicação de O Menino e o Mundo ao Oscar de melhor animação. É curioso que naquele caso o sucesso internacional nas premiações não se traduziu em número de bilheteria, apenas quando o filme foi indicado às grandes premiações que O Menino e o Mundo chamou atenção do público por aqui e voltou aos cinemas para possuir números mais relevantes.

BugiGangue no Espaço é uma espécie de outro lado da moeda nesse momento da animação brasileira. Se O Menino e o Mundo carregava uma espécie de experimentação nesse estilo cinematográfico, uma nova forma de fazer animação que de alguma maneira trazia consigo algum espírito de brasilidade, e muito por esse pensamento conquistou a crítica e uma série de prêmio mundo à fora. BugiGangue no Espaço faz um caminho inverso, um filme que visa alcançar a popularidade via a ocupação do próprio mercado, que tem como objetivo chegar a um público acostumado com o melhor da Disney, Pixar e Dreamworks. O longa tenta se equiparar tecnicamente e narrativamente com o que se tem feito de sucesso na animação hoje em dia.

Feito totalmente em computação gráfica e exibido em 3D, o filme já parte como um árduo trabalho de produção para almejar se equiparar a esse nível internacional, fato que de certa forma carrega certa pretensão ao projeto. Apesar dos esforços, tecnicamente BugiGangue no Espaço fica aquém do que se tem visto e há de se entender. Os meios de produção para animação no Brasil ainda são inferiores ao dos EUA e coisas do gênero, assim como praticamente nenhum país do mundo se equipara aos níveis que se tem na terra de Hollywood. A questão é que nessa obsessão por tentar se comparar às animações estrangeiras, o longa acaba deixando muito evidente suas falhas técnicas, não sabendo jogar com sua própria limitação.


Lógico que isso não apaga as boas intenções de BugiGangue no Espaço, o filme escrito e dirigido por Alê Machado é uma típica ficção científica, concentrando-se num golpe intergalático em que um déspota tenta dominar toda a galáxia e subjugar algumas raças alienígenas. Para evitar que tal acontecimento venha a ocorrer, os pequenos e subestimados Invas partem para a capital e acabam envolvendo um grupo de adolescentes terráqueos nessa causa.

No melhor estilo Sessão da Tarde, os garotos partem para uma aventura que parece se passar em uma tarde em que eles não estariam fazendo nada e acabam caindo numa grande aventura. O longa de animação investe, dessa forma, em um humor e numa narrativa bastantes simples, que se sustenta, diverte, mas não vai nada além disso. Todavia, se isso pode parecer um defeito, também deve se constatar que BugiGangue no Espaço tem essa consciência e não almeja ser mais do que uma simples aventura juvenil, e esse clima está presente no longa como um todo. Se tecnicamente e narrativamente o longa não é primoroso, ele possui essa atmosfera quase nostálgica em que o central é unicamente a aventura, sem almejar carregar a animação com uma centena de subtextos, concentrando-se acertadamente em sua narrativa.

O que mais chama atenção nessa construção de BugiGangue no Espaço é que há um grande sentimento dessa importância do filme para seu realizador. Se desde o começo é sentida a pretensão de um grande projeto que ocupe as salas e que seja um sucesso de público, também há uma sensação de que o filme sai muito pelo sentimento de seu realizador. E muito disso se dá pelo fato do filme ser amarrado em referências e homenagens aos filmes de ficção científica que foram sucesso no passado, conferindo ao longa um sentimento de devoção àqueles clássicos. Assim, essas referências que surgem como piada, o mestre Yoda vendendo suco durante uma convenção, ou como simples homenagem, vão enriquecendo o filme, assim como as pitadas de brasilidade de BugiGangue no Espaço como o personagem do ET de Varginha, servindo como algo que conecta o filme com seu espectador caseiro.

Claramente essa é uma preocupação secundária, mas colocar uma referência, mesmo que pequena, à cultura local é uma espécie de assinatura da nacionalidade do projeto. BugiGangue no Espaço tem a preocupação de se mostrar um projeto grandioso, das suas práticas e técnicas até a sua trilha musical sinfônica, deixando claro que esse é um produto nacional que pode competir com os outros. E se essa pretensão é o que revela alguns equívocos da produção, por trás de tudo isso BugiGangue no Espaço possui uma aventura leve e no mínimo divertida.