Internet: O Filme chega aos cinemas para concretizar o que há algum tempo já vinha sendo articulado no cinema comercial brasileiro: a invasão dos youtubers nas telas grandes. O que já era previsto com Kéfera e Christian Figueiredo, torna-se ainda mais presente no longa, numa estratégia, até bastante precursora do Brasil, que visa trazer o público jovem para as salas de um gênero que historicamente faz muito sucesso por aqui.

Essa é a grande sacada de Rafinha Bastos, idealizador do projeto e um dos roteiristas do longa. A proposta é justamente utilizar todos os rostos vistos milhares de vezes no YouTube num filme voltado totalmente para o jovens, que consiga criar um produto principalmente para quem está inserido nesse mundo de vlogers e influenciadores digitais.

O longa é simples: uma série de pequenas esquetes, desenvolvidas paralelamente, que ocorrem num hotel onde youtubers se hospedam para um evento sobre o assunto. Ao contrário do que o próprio Rafinha Bastos disse, o longa não é uma espécie de Relatos Selvagens brasileiro, todavia, a estratégia narrativa do longa tem seus méritos. Principalmente por fazer de uma característica bem típica do YouTube como seu fio condutor, a agilidade, a piada rápida, a história curta que prende muito mais por seu timing do que realmente por sua narrativa. Como se o filme encontrasse uma forma bastante vinculada à plataforma de vídeo para encaixar todos seus personagens.


Evidente que isso não gera um grande filme, mesmo nessa saída dramática que é a mais orgânica segundo sua proposta, Internet: O Filme é recheado de furos e de sequências que parecem simplesmente não se completar. A mais clara é a história de um garoto que no início dá a entender que será o fio condutor do longa, um menino que está começando no ramo, no entanto, tal personagem nunca é retomado, ficando no ar aquela apresentação que dura todos os créditos iniciais, mas que depois é totalmente abandonada. Assim, o filme faz questão de atestar sua condição quanto filme que fala para apenas um público, essa agilidade encobre esses pequenos erros, e a estratégia está muito mais numa estratégia de assimilação rápida do público do que realmente de pensar as formas que os jovens se relacionam com essas imagens.

Dessa maneira, constata-se duas características marcantes no filme dirigido por Fillippo Lapietra; a primeira na construção extremamente simples, com planos fechados, com cenários visivelmente construídos, num esquema bastante comum nas esquetes televisivas, que não há o desejo de investir em algo novo, mesmo se tratando de um produto provindo de uma mídia nova.

Pelo contrário. Internet: O Filme busca uma aproximação dessa estética televisiva para manter o que já é cristalizado pelo gênero no Brasil, o longa repete clichês em sua direção das épocas mais sem graça do Zorra Total. É apenas na edição que surge mais forte esse caráter youtube, frenética, o filme por vez ou outra trabalha uma sequência de imagens que fazem alusão há algo que não está na cena, a intervenção de memes, de intertítulos, de falsos vídeos e assim por diante, realmente como esses vlogers costumam editar seus vídeos, numa das poucas aproximações formais entre longa e YouTube.

Sendo assim, essa aproximação se dá de forma muito mais textual do que visual, esse direcionamento do discurso para o público dos youtubers ocorre, pois há uma noção de piada interna muito forte durante a projeção. Como se a todo momento Internet: O Filme fizesse piada com o jeito que seus personagens são na vida real, utilizando o conhecimento prévio de seu espectador, validando seu filme por algo fora da própria obra. Thayinara OG dizendo que não gosta de usar Snapchat, sendo ela um snapchater famosa, ou Cauê Moura interpretando um personagem que reclama de tudo, fazendo clara alusão a seus vídeos, são parte desse processo.

Curioso é que o filme não assume por completo essa relação entre personagem e youtuber, não utilizando 100% a persona dos influenciadores no longa. Internet: O Filme faz com que cada um deles interprete um personagem diferente, os youtubers são meros atores tentando atuar, algo que fica evidente na dificuldade de alguns ao encarnar personagens tão próximos a sua realidade. Todavia, uma vez que o longa utiliza como piada a vida de seus intérpretes, aquilo parece um simples jogo de atuação com receio de fazer uma ficção com os próprios youtubers, acreditar que um vloger não está atuando durante um vídeo é muito ingenuidade. O caminho mais interessante seria utilizar essas personas já conhecidas e já populares como os personagens do próprio filme, fazendo um jogo muito mais interessante entre a realidade e a ficção.

Assim, o filme utiliza todos suas potencialidades para investir em piadas curtas, que fazem o público desses youtubers rir, pois conhece o tema tratado, mas que não vai adiante. Internet: O Filme é construído na lógica do meme, da piada fácil, que remete a outras situações, mas que não abre espaço para uma narrativa – a graça está nela mesmo e não em sua continuidade. Nesse sentido, que sempre busca a piada interna, a alusão ao canal x ou y, ou o próprio meme, Internet: O Filme não se sustenta como filme, numa lógica da piada de redes sociais que tem vida curta, e que sua repetição durante mais de 90 minutos é impossível.

Se Internet: O Filme tem seu lado precursor, tem sua sacada em colocar todas web celebridades num mesmo projeto, e até mesmo ser atrativo para um outro público buscar o cinema brasileiro, é necessário destacar também que o longa se dá pelos meios mais fáceis de alcançar seu objetivo, ou seja, parece que tem como principal objetivo muito mais a sala lotada de fãs de youtubers do que realmente se comunicar com esse novo público.