Publicidade

Crítica | Minha Vida de Abobrinha

Publicado por Giovanni Rizzo

14/02/2017 18:04

O cinema contém uma capacidade enorme em surpreender. Mesmo nos tempos da Internet, dos inúmeros trailers e dos torrents, vez ou outra surge por algum motivo um filme que esteve abaixo do radar e de repente surpreende seu espectador com uma qualidade e frescor muito particulares. Minha Vida de Abobrinha é um desses casos, uma animação franco-suíça, em stop-motion com um pouco mais de 60 minutos e que surgiu na lista de indicados ao Oscar do lado de grandes blockbuster como Zootopia e Moana, num filme totalmente diferente e deliciosamente surpreendente.

Começando com um prólogo extremamente duro, no sentido de abordar de forma crua a realidade de seus personagens, o filme mostra um dia na vida de Abobrinha – como o protagonista gosta de ser chamado, em que fica no sótão de sua casa brincando como pode enquanto sua mãe se embebeda no andar de baixo. Após um trágico acidente o garoto perde sua progenitora e é obrigado a partir para um orfanato com tantos outros garotos como ele.

Esse início extremamente sério e tristonho faz com que o longa nos primeiros minutos indique o tom da sua obra. Minha Vida de Abobrinha traz o peso do mundo para aquelas crianças, abordando tudo o que as cerca de forma séria e sem suprir sua dramaticidade, alternando isso com momentos de levezas provindo justamente de uma inocência ao encarar os mais sérios ocorridos.

Escrito por Céline Sciamma baseado na novela Gilles Paris, o primeiro longa dirigido por Claude Barras parece centrar sua câmer a num ambiente recheados de Antoine Doinel – o icônico personagem do clássico Os Incompreendidos, atualizando a condição de marginalizados daquele lugar, mas propondo uma união entre todos eles, e é justamente daí que reside a esperança e leveza em A Minha Vida de Abobrinha. Se em muito é compartilhada aquela visão de mundo do longa de Truffault, aqui há uma resistência afetiva em que os personagens não precisam enfrentar o peso do mundo sozinhos, ainda que a palavra órfão carregue esse significado.

Mesclando complexidade com sutileza e simplicida, Minha Vida de Abobrinha poderia ser comparado com os retratos infanto-juvenis realizados por Sofia Coppola e Gus Van Sant, por exemplo, concebendo uma obra que não tem medo de tocar nos pontos mais sérios da realidade e que afetam, e muito, a construção de uma juventude. Assim, o longa abrange assuntos delicados como a violência, a imigração, os maus tratos e abandono, sem tentar de alguma forma simplificá-los ou amenizá-los. Dessa forma, a animação por toda sua concepção lúdica com um design bastante interessante e atrativo, faz com que se abra uma possibilidade enorme de diálogo entre seu público e os temas que o filme perpassa.

Assim, essa seriedade, que gera muitas vezes um nó na garganta do espectador, é acompanhando por momentos de leveza e diversão, como é, de fato, a vida de qualquer criança ainda mais naquelas situações. Dessa forma, o longa retoma a todo momento essa noção do acolhimento que é realizada pelos membros do orfanato. Minha Vida de Abobrinha, assim, consegue fazer um retrato tão sincero em que a melancolia anda ao lado da alegria. A sequência em que os garotos vão ver a neve, ou um diálogo noturno entre os meninos explicando como uma criança vê o sexo são exemplos dessa graça extraída de momentos comuns da vida de uma criança.

Esse retrato fica ainda mais interessante através dessa inventividade que provém do design dos personagens e dos cenários. Extremamente colorido, Minha Vida de Abobrinha constrói ambientes cheio de detalhes, mas que em momento algum tenta se aproximar fielmente da realidade, assumindo muitas vezes seu caráter lúdico, o filme possui um visual que parece uma ilustração, exagerando em alguns detalhes, para sempre assumir sua condição como animação mesmo. Mesmo abordando assuntos um tanto quanto sérios, Minha Vida de Abobrinha não abre mão de sua exuberância estética.

O longa que de repente esteve nos holofotes do mundo do cinema surge com muito frescor no circuito dos filmes de animação que chegam ao Brasil. Sem exageros, Minha Vida de Abobrinha é um rico retratado da infância, aliando seriedade e leveza, sobriedade e exuberância. Minha Vida de Abobrinha é uma animação para quem quer se surpreender.

Publicidade