Monsters Trucks parece tentar beber de uma fonte que vem dando algum sucesso recentemente, a tentativa clara de repetir estilos e narrativas muito próximas aos longas de aventura dos anos 1980. Assim como o fenômeno televisivo Stranger Things e o longa Meu Amigo Dragão, Monsters Trucks investe numa trama que explore um sentimento aventuresco nostálgico que remete a grandes mistérios sobrenaturais ou fantásticos, envolvendo uma cidade pequena dos EUA, adolescentes e grandes corporações recheada de adultos malvados.

O primeiro longa live-action de Chris Wedge, responsável pelo primeiro A Era do Gelo, é escrito por Derek Connolly (Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros) e conta a história de um garoto que trabalha num ferro velho e encontra um animal pré-histórico que fugiu de seu habitat natural – um poço de lençol freático – após um desastre natural envolvendo uma empresa que explora petróleo. A partir daí o garoto cria uma conexão com o animal, enquanto perseguem aquele ser a fim de não levantar suspeitas a respeito dos danos causados pela exploração do petróleo.

O mais curioso nesse filme é o fato de que esses animais inventados pelo longa se alimentam justamente de petróleo e óleo natural, características que lhe conferem certa conexões com máquinas que necessitam desse combustível de origem animal. Assim, o título do filme é explicado, pois essa criatura passa a ser o próprio motor da caminhonete do protagonista de Monsters Trucks, unindo carros e aqueles personagens curiosos para viverem as aventuras do filme.


Assim, se o tom do longa busca remeter a outro tempo, outra questão que parece ter saído de outra década é a relação que Monster Trucks tenta fazer com os carros que a todo momento permeiam o filme. Muitas vezes o filme parece uma propaganda da Dodge, mostrando todo tipo de carro que a marca tem. O sonho de Tripp (Lucas Till), protagonista do longa, é finalmente ter seu carro que não só chame atenção como possa levá-lo aonde ele quiser. Assim, essa sintonia entre garoto e criatura é tão forte, pois aquele animal dá a oportunidade dele conquistar seu grande objetivo.

Há muito tempo não se via um filme que dá tanta importância ao imaginário automobilístico quanto Monsters Trucks, parece que todos os personagens possuem essa conexão com seus carros, algo que os define e também lhe dão habilidades. Como o caso do padrasto de Tripp, um xerife que a sua maior preocupação é com sua viatura toda modificada. Assim, é óbvio que o longa tenta trabalhar com destreza as sequências que envolvem perseguições e acrobacias automobilísticas.

Com certeza esses são os momentos mais divertidos do longa, em que aqueles animais totalmente diferentes e os carros modificados fazem todo o tipo de coisa. Nesse sentido, Monsters Trucks é uma espécie de autorama cinematográfico, que tenta modificar de um jeito criativo as pistas em que seus carros serão colocados. Os animais do filme permitem que os automóveis voem, rodopiem, corram e tantas outras coisas, achando momentos criativos e empolgantes para manter seu espectador dentro do filme. Evidentemente não se faz um filme com uma ou outra cena de perseguição de automóveis.

Monsters Trucks, na busca por parecer um clássico da Sessão da Tarde, pretende ser um filme majoritariamente leve, recheado de momentos cômicos. Essa chave funciona muito mais quando o animal está em cena do que em qualquer outro momento, isso porque o design realizado para a criatura faz com que aquele anfíbio pré-histórico seja um personagem carismático e extremamente fofo. De resto, Monsters Trucks demonstra uma enorme dificuldade para criar momentos realmente engraçados. Se o filme tenta fazer um resgate de um humor inocente, que faz piadas simples, nota-se o quão difícil é fazer comédia no cinema, parece que o longa não possui timing nenhum, como se suas gags estivessem sempre sendo colocadas no instante erradas, não atingindo devidamente seu público. Em Monsters Trucks é como se toda tentativa cômica passasse do ponto e assim ninguém pode se divertir com aquelas tentativas.

Muito disso se deve em função da falta de um apelo carismático. Pode ter certeza que no longa o personagem mais afeito ao público com certeza é aquela criatura que nem mesmo fala. Para um filme desse estilo é fundamental que seus protagonistas sejam totalmente atraentes e identificáveis, para que haja a mínima identificação com o público, como se houvesse um sentimento de que uma pessoa comum como qualquer outro adolescente presente na plateia esteja passando por essa grande aventura, vide os exemplos de Stranger Things ou Goonies, por exemplo.

O que ocorre é que Monster Trucks possui um elenco com baixíssima sintonia, que parece sempre estar num estado caricatural de suas personagens, sempre infantilizando as suas personas. É difícil defender a atuação de Lucas Till (X-Men: Primeira Classe) ou da coadjuvante Jane Levy (O Homem nas Trevas), já que ambos realizam uma performance que transformam seus personagens em estereótipos de adolescentes, dificultando e muito esse processo de identificação.

Assim, Monster Trucks leva a conclusão que é difícil realizar um filme com o apelo que aqueles clássicos oitentistas possuíam. Se algumas obras hoje em dia conseguem se aproximar do espírito daqueles filmes, tratar isso como um manual não é um caminho tão seguro. Monsters Trucks, dessa maneira, torna-se uma aventura pequena, mesmo com seu tom leve, com seus adolescentes comuns em grandes aventuras e com uma criatura de um mundo fantástico que esbanja carisma. As equações no mundo do cinema nunca são tão exatas.