Crítica | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

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Alguns projetos parecem carregar certas características de uma obra cult, mesmo estando dentro de padrões claramente comerciais. Com certeza A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell possui essa personalidade, e até mesmo a pretensão de o ser. Baseado na animação da década de 1990, nos animes e mangás de Ghost in the Shell, o longa já nasce de um material muito rico, que apesar de conhecido se diferencia bastante das fontes dos atuais blockbusters.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell retrabalha uma série de estilos e temas que pareciam fora de moda, ou pelo menos o longa antecipa tendências que podem estar por vir no cinemão americano. Como seu material de origem, A Vigilante do Amanhã escancara suas referências do universo cyberpunk, trazendo por completo esse subgênero da ficção científica. Por menos que isso seja inovador, o futuro límpido e agradável visto em alguns longas-metragens sci-fi é deixado de lado, até mesmo filmes críticos como Elysium (2013) apostaram nessa ficção científica higienizante.

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Fato é que A Vigilante do Amanhã não é apenas inspirado por esse subgênero, esta é uma obra com todos os aspectos do cyberpunk e são justamente eles que conferem os pontos mais interessantes desse longa. A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell conta a história de uma androide, Major (Scarlett Johansson), que após passar por um acidente tem seu cérebro e sua “alma” (o ghost do título original) colocadas num corpo biônico. A protagonista faz parte de um esquadrão de elite que investiga crimes cibernéticos para uma grande empresa de tecnologia, até que Major tem uma crise de consciência e questionar-se sobre quem realmente a comanda.

O futuro deste longa-metragem beira a distopia, numa obra que almeja abordar as inovações tecnológicas como um fator muito mais dúbio do que como uma dádiva. Num mundo em que seres humanos fazem upgrades com o uso da tecnologia, colocando próteses cibernéticas no lugar de seus órgãos biológicos, há sempre uma questão colocada de qual é o preço pago por esses avanços? ou, quem realmente está lucrando ou ganhando com toda essa inovação? Essas são perguntas muito intrínsecas ao universo cyberpunk e que vão pautar opções estéticas/estilísticas e temáticas de A Vigilante do Amanhã.

Com essa consciência em relação ao mundo abordado, o longa utiliza-se do recurso do futuro usado, o famoso low-tech, muito popularizado pelo clássico Blade Runner (1982), em que esse outro tempo utiliza-se da baixa tecnologia consumida hoje para constituir sua distopia. Assim, hologramas coloridos e tecnológicos habitam o mesmo espaço de prédios e ambientes com uma série de fios desencapados, lixo eletrônico e água suja, concebendo assim um universo assombroso em que a tecnologia aparente esconde uma sujeira iminente, algo que reflete nos personagens da trama.

Visualmente interessante, o filme trabalha essa sujeira futurística em suas cores e luzes, onde, muitas vezes, o neon colorido só deixa os planos e personagens numa escuridão total, utilizando todo aspecto do neo-noir. A trilha sonora de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell também remete aos clássicos do cyberpunk, diferenciando-se quase que completamente do que se escuta dentro dos blockbusters. A trilha musical é recheada de batidas eletrônicas inspiradas num techno oitentista, dialogando com o gênero do vaporwave, em que a música parte da sonorização de elementos técnológicos e eletrônicos. Nas imagens e nos sons, Vigilante do Amanhã é um filme que utiliza de elementos de um passado próximo para constituir seu futuro, algo longe de ser inédito, mas muito interessante.

Se estilisticamente o longa segue por caminhos que buscam diferenciar-se da estética dos blockbusters, em seus assuntos há no mínimo uma tentativa de fazer o mesmo. A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell trabalha muito bem essa questão da radicalidade contra a tecnologia presente em toda cultura cyberpunk. Essa busca de Major pela sua própria consciência vai desmascarando a grande corporação para qual trabalha, evidenciando a tecnologia como uma fonte de poder e não como um fator de aproximação humana.

A Vigilante do Amanhã não é um filme sobre grandes ameaças ou sobre missões impossíveis, mas sim a respeito dessa jornada de consciência humana em relação a um mundo cibernético, algo muito significativo por partir de uma personagem metade máquina e metade homem. Essa é uma questão que dá substância ao filme, tentando de forma muito digna não ser apenas mais um blockbuster, mas colocar sua protagonista como algo a mais do que um simples joguete malabaristas em cenas de ação.

É bem verdade que, pelo filme carregar a pretensão de ser uma grande franquia, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não desenvolve plenamente suas ideias. O longa parece seguir uma cartilha a fim de que sua trama deixe pontas abertas ou pontos de interesse para convencer seu público a desejar uma continuação. Nesse processo é o longa que perde a oportunidade de concretizar suas ideias e gerar por si só uma grande obra.

Principalmente o último terço de A Vigilante do Amanhã é marcado por uma irregularidade gritante, não combinando com o ritmo bem compassado (para um filme de ação) do início e desenvolvimento de sua projeção. Os últimos momentos do filme são marcados por despejar uma série de informações no espectador, tudo o que ficava na penumbra durante boa parte do roteiro é vomitado nos minutos finais, por vezes de forma bem verborrágica – a síntese do passado da protagonista -, em outros momentos simplesmente atabalhoada – a revelação do verdadeiro vilão da história e seu desfecho.

Por fim, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell é um blockbuster com pretensões de trazer questões temáticas e estéticas que se diferenciem do atual cenário do cinemão. Se essa versão de Ghost in the Shell pode não chegar ao status de cult movie, trazer características e ideias que fogem do padrão é sempre muito bem-vindo.

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